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Nas últimas semanas, muitas foram as notícias sobre a eminente transferência de Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid.

Embora não existisse unanimidade, os valores apontavam para a astronómica soma de 100 a 120 milhões de euros. 

Em certos casos, dizia-se que esse valor incluíria o passe de outros jogadores do Real Madrid (Di Maria, Coentrão, etc), e que poderia diminuir para cerca de 80 milhões, se eles fossem incluídos no negócio.

Seja como for, a imprensa do futebol parecia dar como adquirido que iria ser batido o recorde de transferências, no valor de 94 milhões de euros e ainda na posse de de Cristiano Ronaldo, quando em 2009 se mudou do Manchester United para o Real Madrid. 

Como é evidente, aquilo que sei é o que vem escrito na imprensa, e portanto não faço ideia se Bale será ou não transferido este ano, e a ser porque valor se fará a operação.

Porém, parece-me interessante investigar a questão do valor da transferência. Será que Bale vale 120 milhões? Ou mesmo 100 milhões de euros?

Qual o valor de mercado do jogador? E como se chega a esse valor?

A empresa brasileira Pluri Consultoria, que publica todos os anos uma lista dos 60 mais valiosos jogadores de futebol do mundo, considerou que no final da época de 2012 o jogador Gareth Bale era o 17º mais valioso do mundo, com um valor de mercado de 39 milhões de euros.

E, em Abril último, já perto do final da época de 2013, o site alemão TransferMarket colocava Bale apenas um lugar acima, no 16º lugar, com um valor de 42 milhões de euros, semelhante ao de Mário Gotze, Sergio Busquets, Juan Mata ou Frank Ribery. 

Portanto, e apesar da excelente época 2012/2013 que fez, Bale não subira muito o seu valor para os obervadores de mercado, não passando da quinta posição entre os jogadores que actuam na Premier League inglesa, atrás de Rooney, Kun Aguero, Van Persie e David Silva. 

Como explicar então que um jogador que em Abril estava avaliado em 42 milhões possa em Agosto valer 100 ou mesmo 120 milhões?

Para analisar o valor de mercado de um jogador é preciso avaliar as suas características: a sua performance, a sua integração numa equipa, e o potencial gerador de receitas para o clube.

Comecemos pela "performance". Bale tem 24 anos, feitos a 16 de Julho, e está portanto na idade perfeita para dar um salto na carreira, quase a atingir a maturidade como jogador mas ainda com uma força física impressionante. 

É normalmente nesta idade que acontece um pulo salarial e Bale já ganha perto de 5 milhões de euros por ano. Se ficar no Tottenham esta época, terá provavelmente direito a um aumento de salário substancial.

Dotado de um estupendo pé esquerdo, Bale evoluiu de defesa-esquerdo para extremo-esquerdo, e depois para extremo à solta, a quem o treinador dá inteira liberdade para vaguear por onde quer.

É muito rápido, forte e possante, e começou por ser notado pela forma eficaz como batia livres, marcando muitos golos.

No entanto, nas últimas duas épocas, sobretudo na última, marca cada vez mais golos em andamento, embora quase só com o pé esquerdo. 

Em Abril de 2006, tornou-se no segundo mais jovem jogador de sempre a estrear-se no Southampton, com apenas 16 anos e 275 dias. Marcou nessa época dois golos, ambos de livre directo.

Ao todo, realizou 45 jogos com a camisola do Southampton, tendo facturado 5 golos, e em Maio de 2007 foi vendido ao Tottenham, por cerca de 10 milhões de euros. 

Já nos Spurs, começaram os problemas sérios. Uma rotura de ligamentos no tornozelo direito impediu-o de jogar mais esse ano, e mesmo a época seguinte, 2008-2009, ficou seriamente comprometida, tendo Bale jogado muito pouco.

Os problemas continuaram: em Junho de 2009 foi operado ao joelho e perdeu a pré-época. Mas a parte final dessa temporada já correu bastante bem, e renovou com o Tottenham em Maio de 2010.

A partir daqui é quase sempre a subir.

O número de golos marcados aumenta: serão 11 no final da época, seguindo-se 12 na época seguinte, 2011-12.

Embora jogasse a extremo-esquerdo cada vez mais vezes, só no início da última época é que muda defitivamente de número e de posição. Troca o 3 pelo 11 e declara que não mais será um "defesa-esquerdo". 

A mudança definitiva faz explodir a sua importância na equipa. Já com André Villas-Boas como treinador, marca um total de 26 golos e anda literalmente com os colegas às costas, levando-os ao quinto lugar na Premier League.

No entanto, e apesar de vários títulos individuais, Bale nunca venceu qualquer título por equipas, nem sequer uma taça. E na Europa, o Tottenham não passou dos quartos-de-final da Liga Europa...

Para complicar a situação, a velha lesão no tornozelo direito voltou a dar problemas, afastando Bale durante alguns jogos.

O seu estilo espectacular de corrida é a sua imagem de marca, bem como os poderosos pontapés, mas o tornozelo direito é o seu calcanhar de Aquiles, por assim dizer.

Para além disso, Bale também não tem grande sorte com a Seleção Nacional pela qual joga. O seu País de Gales não será nunca um concorrente à altura de um Europeu ou de um Mundial de Futebol, o que significa que ele não pode aproveitar esses palcos para se valorizar. 

Harry Redknapp, que o lançou como extremo-esquerdo, é um dos seus principais apreciadores, e considera-o "um talento impressionante, que tem melhorado sempre, um jogador de classe mundial, logo atrás dos Messis e dos Ronaldos". 

Sim, é evidentemente um excelente jogador, mas ao ponto de valer 120 milhões de euros?

Terá Bale um potencial grande de atração de novas receitas? É que encher as bancadas de White Hart Lane não é exactamente o mesmo de enchê-las no Santiago Bernabéu. 

Também não parece provável que as audiências televisivas do Real dêem um pulo muito grande só por causa de Bale, ou que o número de camisolas vendidas com o seu número seja muito espantoso na Ásia ou na América.

Bale ainda não é uma estrela mundial, e não tem uma imagem fantástica e "cool", que possa ser rentabilizada, como se passou com Beckham.

Por outro lado, e esse pode ser um problema grande, a presença de Bale, se o Real pagar por ele os tais 100 ou 120 milhões, poderá desestabilizar a hierarquia salarial da equipa.

Será que ele vai ganhar mais do que Ronaldo ou do que Ozil, o segundo jogador mais valioso do Real? Ficará à frente de Casillas? 

E como lidará Cristiano com a ideia de que já não é o recorde de transferências do mundo? Não será esse um factor de instabilidade adicional para o seu ego susceptível, ainda por cima sabendo todos nós que Cristiano marca por ano o dobro dos golos de Bale?

Bale é um excelente jogador e também profissional, e a sua vida pessoal, bem como o seu comportamento fora do campo não acusam qualquer falha preocupante. Porém, 100 milhões é muito dinheiro, e atendendo a que o potencial de receitas que Bale pode gerar é inferior às que gerou até agora Ronaldo, não se compreende bem como pode o Real admitir pagar tanto dinheiro por ele.

Bem sei que cada transferência é uma história, uma narrativa original, e há sempre um elemento muito especulativo no mercado de transferências, mas mais do que 80 milhões por Bale parece-me um mau negócio.

Até porque há o tal tornozelo, que já deu problemas graves...

Por fim, temos de considerar a dimensão do "fair play financeiro" da UEFA.

Arsene Wenger, treinador do Arsenal, já veio a público dizer que se a transferência de Bale se realizar por 120 milhões de euros então o "fair play financeiro" não existe.

Ele sabe do que fala.

Uma das críticas que os clubes ingleses fazem à UEFA é a de que ela permite que em Espanha existam 2 clubes (Real e Barça) que ganham muito mais que os outros clubes europeus em direitos televisivos, e que gastam fortunas em jogadores, sem depois levarem as perdas efectivas às suas contas, pois nem Real nem Barça são sociedades comerciais, e podem realizar muita "contabilidade criativa"...

É um ponto relevante, mas a UEFA não deu qualquer resposta.

 

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publicado às 15:15



Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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