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Nos últimos dias, vários jornais económicos e desportivos noticiaram o fantástico acordo de patrocínio das camisolas do Barça.

O patrocinador, a Qatar Airways, é o primeira marca comercial a aparecer estampada nas camisolas do clube, e o valor do contrato é excelente.

São cerca de 30 milhões de euros no primeiro ano, mais 5 milhões dependendo da carreira na Champions, e ao terceiro ano, o último do contrato, o valor poderá chegar mesmo a 33+5 milhões.

Para quem nunca vendera a camisola a marcas, o Barcelona fez-se pagar caro.

Mas, há anos que o Barça vinha quebrando o tabu devagarinho.

Primeiro com a Unicef, e depois, nas duas últimas épocas, com a Qatar Foundation, que é nem mais nem menos que a dona da...Qatar Airways.

Foi pois uma transição serena, e agora já não há nenhum clube de futebol no mundo (dos grandes, obviamente) que não tenha patrocinador nas camisolas.

 

No entanto, quem pense que este é o maior patrocínio de sempre, está enganado.

Acima do Barça existem pelo menos dois clubes: o Bayern de Munique e o Manchester United.

Quanto aos alemães, o patrocínio da Deutsche Telekom está avalidado em 40 milhões de euros por ano, e esta época ainda é o maior do mundo.

Aliás, o Bayern é o clube europeu que mais factura com patrocinadores, cerca de 200 milhões de euros por ano.

No grupo dos sponsors, além da Deutsche Telekom, estão a Audi, a Adidas, a Samsung, a cerveja Paulaner e a Allianz, que dá o nome ao estádio de Munique.

Mas, o reinado do Bayern só vai durar mais um ano, pois já foi anunciado um novo contrato de patrocínio milionário entre o Manchester United e a Chevrolet, que no entanto só entrará em vigor em 2014/2015.

O valor total do patrocínio será de 559 milhões de euros a dividir por sete temporadas, o que dá um número anual de cerca de 79 milhões de euros, para a Chevrolet aparecer nas camisolas do United.

 

Assim sendo, é possível fazer um ranking dos maiores patrocínios de camisolas do futebol europeu, já levando em conta o contrato anunciado pelos "red devils".

1 - Manchester United, Chevrolet, 79 milhões por ano (só a partir de 2014/2015).

2 - Bayern Munique, Deutsche Telekom, 40 milhões

3 - Barcelona, Qatar Airways, 35 milhões

4 - Manchester City, Ethiad Airways, 31 milhões

5 - Liverpool, Standard Chartered, 31 milhões

6 - Real Madrid, Emirates, 25 milhões

7 - Chelsea, Samsung, 21 milhões

8 - Borussia Dortmund, Evonik, 20 milhões

9 - AC Milan, Emirates, 16 milhões

10 - Schalke, Gazprom, 15 milhões

 

Estes números são retirados dos relatórios da Deloitte e da Brand Finance, e mostram como os patrocínios se tornaram com o tempo como uma das maiores fontes de receitas dos clubes. 

Embora estes valores se refiram apenas aos patrocínios na parte da frente das camisolas, há muitos outros patrocinadores, seja nos interior dos estádios, nos centros de estágio, no naming, nos equipamentos principais e alternativos, e também nas televisões de alguns clubes.

Como já disse, na Europa é o Bayern que mais factura em patrocínos, e os seus 200 milhões de euros anuais nesse tipo de receitas ultrapassam o valor das receitas das bilheteiras e dos direitos televisivos.

 

E quanto a Portugal, onde estamos?

Na época de 2011/2012, o Benfica foi o que mais facturou em patrocínios, 17 milhões de euros.

E, na última temporada, o valor reportado no relatório do 3º trimestre, apontava para uma ligeira quebra, prevendo-se que o valor anual andasse pelos 16 milhões.

Para esta temporada, o clube não divulgou o valor do patrocínio da MEO, provavelmente porque o contrato engloba mais coisas, como a partilha de receitas da Benfica tv.

Quanto ao FC Porto, o valor da publicidade e patrocínios foi de 13,2 milhões de euros na época de 2011/2012, prevendo-se no terceiro trimestre de 2012/2013 também uma ligeira quebra, que aponta para um valor anual abaixo dos 13 milhões.

Por fim, no Sporting, em 2011/2012, valor foi de 7,7 milhões de euros, e para 2012/2013 a previsão no terceiro trimestre apontava também para uma quebra, devendo o valor final ficar abaixo do 7 milhões.

Embora seja óbvio que o mercado português é mais pobre que os outros, julgo que os patrocínios em Portugal estão um bocado abaixo do seu potencial.

É uma área onde são precisas mais e melhores ideias, para as marcas e para os clubes. 

 

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publicado às 12:28

O Jornal de Negócios publicou recentemente vários artigos sobre a próxima temporada de futebol, noticiando com destaque, e chamada de capa à primeira página, que os orçamentos dos clubes de futebol da Liga Zon Sagres iriam ser reduzidos em cerca de 20 por cento.

A razão principal era a crise, e as reduções variavam de clube para clube, mas o total não chegava aos 200 milhões de euros, claramente abaixo do total do ano anterior, de 240 milhões.

Como era de esperar, o Sporting era apresentado como o clube que fez o corte mais drástico, de 44,4%, reduzindo o seu orçamento de 36 para 20 milhões.

O Braga reduzia de 15 para 13 milhões; o Benfica reduzia de 50 para 40 milhões; e o FC Porto reduzia de 100 para 90 milhões.

No entanto, e mesmo assim, o FC Porto era responsável por quase metade do orçamento total dos clubes, gastando 90 num total de 200 milhões.

Foi este número que me fez pensar e refletir se estes valores estariam correctos.

 

Em primeiro lugar, há a questão semântica.

O que é o orçamento? Normalmente, um orçamento é um documento onde existe uma previsão para as receitas e outra previsão para as despesas do próximo ano. Assim é, por exemplo, no Orçamento Geral do Estado (OGE).

A diferença entre as receitas e as despesas será um deficit, se for negativa, ou um superavit, se for positiva.

No caso das empresas, normalmente chamamos lucro, se a diferença for positiva, e prejuízo se for negativa.

É isso um orçamento, no entanto não é nesse sentido que me parece ter sido usada a expressão "orçamento" pelo Jornal de Negócios.

Uma vez que não existia qualquer referência às receitas dos clubes, eu deduzi que os "orçamentos" referidos pela publicação eram apenas as despesas dos clubes. 

É o "orçamento" na sua versão popular, como quando pedimos um "orçamento" a um canalizador para nos desentupir os canos. Nesse caso, o "orçamento" é apenas a nossa despesa.

 

Mas, sendo assim, será que fazem sentido os números apresentados pelo Jornal de Negócios para a despesa dos clubes na próxima temporada?

Talvez o exercício mais correcto seja comparar esses números com os números apresentados pelos 3 grandes nos seus últimos relatórios de contas. 

Na época de 2011/2012, o Benfica teve de custos operacionais 83,5 milhões de euros.

E, na época de 2012/2013, a última, apesar de ainda só ter saído o relatório de contas relativo ao terceiro trimestre (nove meses), os custos operacionais já iam nos 62,6 milhões de euros, o que aponta para um valor anual semelhante ao do ano anterior, de cerca de 83 milhões. 

Quanto ao Sporting, em 2011/2012, os custos operacionais da SAD foram de 66,3 milhões; e na época passada, também para apenas 9 meses, esse valor já ia em 48,3 milhões, o que também aponta para um valor no final do ano na casa dos 64 milhões de euros.

Finalmente, veja-se o FC Porto. Em 2011/2012, o valor dos custos operacionais foi de 91,4 milhões de euros. 

E, também para os mesmos nove meses, em 2012/2013, o valor apresentado era de 68,5 milhões, o que aponta para um valor final próximo 91 milhões.

Portanto, e em resumo, nas últimas duas temporadas, as despesas (ou custos) dos 3 grandes foram:

FC Porto - 91,4 e 91

Benfica - 83,5 e 83

Sporting - 66,3 e 64

 

É evidente que estes números são bastante diferentes daqueles que o Jornal de Negócios apresentou para os "orçamentos" dos 3 clubes.

Segundo o Jornal de Negócios, o FC Porto tinha um "orçamento" de 100 milhões para a época passada, mas na verdade a sua despesa não deverá ultrapassar muito os 91 milhões. 

Assim sendo, o "orçamento" para a época que agora começou não baixou 10 por cento, porque aquilo que o FCP prevê gastar (90 milhões) é mais ou menos o mesmo que gastou efectivamente nas duas últimas épocas.

Quanto ao Benfica, é aqui que há mais perplexidade nos números. Segundo o Jornal de Negócios, o Benfica tinha um orçamento de 50 milhões a época passada e agora desceu para 40 milhões.

Mas, na verdade, os custos do Benfica, nas duas últimas épocas, andaram nos 83 milhões.

Alguém acredita que o Benfica vai gastar este ano metade do que gastou o ano passado?

Julgo que o número que o Jornal de Negócios apresenta para o "orçamento" do Benfica está errado, não pode ser 40 milhões. Mais do que isso gasta o clube em despesa salarial...

Por fim, quanto ao Sporting, o número apresentado pelo Jornal de Negócios para o orçamento da época anterior, 36 milhões, também está muito longe da realidade, que deverá andar pelos 64 milhões.

Ou seja, se o Sporting diminuir a sua despesa para 20 milhões de euros, como diz o Negócios, irá cortar a sua despesa para um terço e não para metade!

Também aqui me parece haver um erro.

 

O Jornal de Negócios não revela a fonte dos seus números, limita-se a dizer que "recolheu dados", mas não diz onde.

Que eu saiba, não há qualquer documento oficial dos clubes onde seja apresentado um "orçamento". 

Assim sendo, os números devem ter sido obtidos de forma informal, e como acontece às vezes, não batem muito certo com a realidade.

É claro que, como avisa Ricardo Gonçalves, da Deloitte, "os orçamentos dos anos anteriores nunca foram cumpridos".

É verdade, mas exactamente por isso é que o Jornal de Negócios devia ter visto os números com mais atenção, pois não faz qualquer sentido apresentar o FC Porto com um orçamento de 90 milhões e o Benfica na casa dos 40 e o Sporting a 20.

Aliás, também o Record, no seu Guia 2013/2014, apresenta o mesmo erro.

Existe uma diferença entre o que gasta o FC Porto e o que gastam os outros, mas é muito menor do que a apresentada. 

 

 

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publicado às 17:16

Costuma dizer-se que os Estados Unidos da América são um país muito mais liberal do que a Europa.

Pode ser verdade em muitas áreas da economia, mas no desporto não é. 

Os mercados de trabalho das grandes ligas desportivas americanas (NFL, NBA, MLB, NHL, MLS) são muito regulamentados e os jogadores não mudam de clube com facilidade.

Praticamente não existe "mercado de transferências", há muito poucas no basquetebol ou no futebol americano.

Mudar de clube é muito difícil, e os contratos são blindados, protegendo mais os clubes do que os jogadores.

Além disso, existem "tectos salariais" para evitar o crescimento estratoesférico dos salários. 

A NFL, a liga mais bem gerida do mundo e a que mais lucro dá, limita muito a mobilidade dos jogadores, e tem um sistema de contratos complexo, distinguindo os jogadores conforme o número de anos que já jogaram.

Todas estas regras visam impedir a explosão dos custos salariais nos clubes, e talvez por isso os clubes desportivos americanos, em quase todas as ligas, são muito mais rentáteis e luvrativos do que os clubes de futebol.

Há limites aos custos mais rigorosos e isso impede o endividamento permanente.

Contudo, não é assim no mundo do futebol.

A liberdade quase total de movimentos é a norma da FIFA.

A mobilidade dos jogadores é enorme, bem como o seu poder, e o dos seus empresários.

Também existem muitos empresários na América, mas as regras são diferentes. 

A roda viva planetária em que se transformou o mercado dos jogadores de futebol raia a loucura, e os principais prejudicados são os clubes.

Os salários dos jogadores estão quase sempre a subir, e no topo da qualidade atingem valores absolutamente espantosos.

Eto´o é o mais pago, a 20 milhões de euros por ano, o que é um absurdo, pois nem sequer é dos melhores do mundo.

Esta espiral de subida dos custos é a principal responsável pelo endividamento colossal da maior parte dos clubes de futebol.

Seja em Inglaterra, em Espanha, Itália ou Portugal, os clubes endividaram-se para poderem competir, mas quem tem ganho mais são jogadores e empresários.

A facilidade legal com que os jogadores mudam de clube, a lei das transferências, as janelas do mercado, tudo conspira contra os clubes.

Os contratos, mesmo quando são recentes, não garantem quase nada, e os jogadores podem "forçar a saída". 

Este Verão tem sido pródigo em "casos" em Portugal.

No Benfica, além do melodrama de Cardozo, houve também o "desaparecimento" de Oblak, que tinha contrato; as opacidades da venda de Roberto; ou o estranho caso de Pizzi.

No Sporting, há o "caso Bruma" e há também o "caso Labyad", e ainda outros menores.

Nem o FC Porto está imune a estas coisas.

Atsu foi relegado para a equipa B, alegadamente por ter ameaçado assinar pelo Benfica.

Rolando, depois de um ano numa obscuridade forçada, saiu finalmente, dizendo cobras e lagartos dos dirigentes azuis.

E há ainda Jackson Martinez, que fez apenas uma época, reconheça-se que de muita qualidade, e agora já ameaça em declarações públicas o clube, estabelecendo as suas condições:"ou renovo ou saio".

O enquadramento legal demasiado solto e permissivo, e demasidado favorável aos jogadores, aliado ao funcionamento quase selvagem do mundo do dinheiro, criam tremendos problemas às equipas, e sobretudo aos treinadores.

Com quem podem contar Paulo Fonseca, Jorge Jesus ou Leonardo Jardim? 

Até aos primeiros dias de Setembro, os clubes estão vulneráveis, o planeamento é difícil de estabilizar, e a cabeça dos jogadores continua desfocada.

Eles pensam em dinheiro, em melhorar a vida, e isso é compreensível.

Mas, os prejudicados com esta rotação imparável de jogadores são sobretudo os clubes.

É também por isso que o endividamento é tão elevado.

Gerir um clube nestas condições de mercado é muito complicado. Na América é mais fácil, porque a América não é tão liberal no desporto.

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publicado às 12:39

Na semana passada, a imprensa desportiva referia que Luís Filipe Vieira teria estabelecido uma meta: 75 milhões de vendas de jogadores até ao fecho do mercado, em inícios de Setembro. 

Será isso possível, com os jogadores que o Benfica tem? E faz sentido colocar um objectivo assim tão definido, um número mágico?

A mim parece-me um erro colocar um objectivo tão minucioso e tão alto. 

É que essa entidade tão vasta chamada "mercado" não é controlável por ninguém, e os seus caprichos são imprevisíveis e flutuantes.

Ninguém sabe bem o que o "mercado" pode querer até inícios de Setembro, e colocar a fasquia nos 75 milhões pode ser um pau de dois bicos.

Se o Benfica não chegar a esse valor em vendas, lá virão os críticos de Vieira dizer que ele foi demasiado ambicioso e guloso, e que agora terá de lamber as feridas, ficando mais uma vez atrás do rival FC Porto, que temos de recordar já realizou esse valor com as vendas de Moutinho e James Rodriguez.

Mas, e se acontecer?

Os que defendem essa possibilidade recordam o Agosto de 2012. Até dia 20 e tal de Agosto, o clube não tinha vendido ninguém com relevância.

Depois, em pouco mais de uma semana, vendeu Javi Garcia para o City, por 20 e tal milhões, e Witsel para o Zenit, por 40 milhões.

Se o ano passado se conseguiram 60 e tal milhões em menos de quinze dias, porque não este ano?

E quem poderão ser os jogadores que, somando os seus valores de vendas, cheguem a 75 milhões?

A imprensa desportiva falava em cinco jogadores: Matic, Salvio, Garay, Gaitan e Cardozo.

Analisemos primeiro aqueles cuja saída não seria muito danosa para a qualidade da equipa.

Garay, por exemplo, pode valer 20 milhões, mas há notícias de que o Manchester United queria dar apenas 15 a pronto, pagando o resto ao longo de vários anos.

Aqui, o Benfica pode realizar entre 15 a 20 milhões, mas metade será sempre para o Real Madrid, e portanto não deve ir às contas da Luz.

Quanto a Cardozo, já se viu que os 15 milhões são difíceis, mas talvez 12 sejam possíveis.

Resta Gaitan, que nos sites que avaliam os jogadores não passa dos 15 milhões. Vendê-lo por 20 seria pois um excelente negócio, embora se trate de um jogador que não faz claramente a diferença, nem marca muitos golos.

Em resumo, e sem grandes danos para a qualidade da equipa, o Benfica pode realizar, numa estimativa muito benéfica, no máximo 45 milhões com estes jogadores (10 por metade do passe de Garay, 20 por Gaitan e 15 por Cardozo).

Ou, numa estimativa mais sensata, 35 milhões de euros (7,5 por Garay, 15 por Gaitan e 12,5 por Cardozo).

Agora, se vender ou Matic ou Salvio, os valores poderão subir consideravelmente.

Salvio poderá valer entre 25 e 30 milhões, é um excelente extremo, jovem, que marca muitos golos por ano. 

Matic ainda poderá ter um potencial maior. É um grande médio, fez uma época fantástica, e também marca golos.

Embora nos sites de avaliação de jogadores o seu valor não chegue aos 25 milhões, é possível que bem negociado vá até aos 35 ou 40 milhões, sobretudo se os compradores forem clubes milionários a contruir ainda equipas, como o PSG ou o Mónaco.

É pois perfeitamente admissível atingir um valor de 75 milhões, ou até mais, se todos os cinco jogadores forem vendidos.

Mas, e esse é o ponto, alguém acredita que o Benfica vai vender 5 jogadores destes na mesma época?

E como ficaria Jorge Jesus, que perderia de uma assentada 5 titulares da equipa?

Parece-me que, mais do que definir um objectivo mágico para o total de milhões que se obtém em vendas, Vieira se deve preocupar em vender bem quem já tem substituto à altura. 

São os casos de Garay (há Lisandro), Cardozo (há Lima, Rodrigo e talvez Funes Mori), e Gaitan (há Markovic, Ola John, Suleimani). 

Depois, é escolher um dos outros dois: ou Salvio, e perde-se força no ataque, ou Matic, e perde-se no meio-campo.

Vender os cinco ao mesmo tempo é que me parece demais. 

É certo que, nos escombros da venda de Javi e Witsel, Jesus construiu uma equipa que foi muito longe e chegou a ser brilhante na época passada.

Mas, fazê-lo de novo sem Matic, Salvio ou Cardozo, é muito difícil. Seria mesmo um milagre...

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publicado às 15:20

O "caso Cardozo" ameaçava tornar-se um sério melodrama, e por isso teve de se lhe colocar um ponto final.

Ontem, o jogador falou à Benfica TV, e pediu desculpa a treinador, colegas e adeptos, pelos seus excessos na final da Taça de Portugal.

Foi um acto necessário, que só pecou por tardio.

70 dias para pedir desculpa, é muito dia. 

Um triste episódio que podia ter sido resolvido logo em Maio, uma ou duas semanas depois de ter acontecido, prolongou-se pelo Verão, e tornou-se uma telenovela um pouco patética.

Julgo que o Benfica não obrigou Cardozo a pedir desculpas porque estava convencido da sua venda. Como ela não se deu, é preciso meter o contador a zero outra vez. 

E, com este pedido de desculpas, as coisas mudam mesmo.

Perdoado e arrependido, Cardozo pode perfeitamente treinar-se com os colegas, ser integrado na equipa e jogar, caso Jesus o entenda.

Seja ou não vendido até ao fecho do mercado, estará em actividade, e não num exílio forçado em Sesimbra, ou noutro local qualquer.

É disparatado ter um jogador como Cardozo nas suas fileiras e não o usar, e foi isso que os adeptos quiseram dizer, com os seus assobios no final do jogo com o São Paulo.

Embora na época passada Cardozo tenha marcado menos golos que Lima no campeonato, o mito do Tacuara goleador fulgurante continua vivo na Luz, sobretudo quando a equipa fica a zero.

Com este pedido de desculpas, voltou o juízo a todos, e a situação regressará ao normal.

O que não se pode dizer, como disse o empresário, é que havia o risco do jogador desvalorizar por causa de estar parado. Isso não é verdade.

Cardozo não é um menino imberbe, de méritos desconhecidos. Marca muitos golos por ano, há muitos anos. É o melhor goleador estrangeiro da história do Benfica.

Não é por falhar um mês de treinos que perde valor. Se algum valor perdeu, foi por se ter comportado mal, à vista de todos, com recriminações inaceitáveis.

Isso sim, tira valor, pois os clubes não gostam de "troublemakers" nos seus plantéis.

Não se pode portanto dizer que a transferência para o Fenerbahçe falhou por causa do "melodrama da Taça de Portugal". As razões foram outras.

O presidente do Benfica não quis correr riscos financeiros e fez bem.

O Fenerbahçe está envolvido em graves suspeitas, e só se inscreveu na Liga dos Campeões porque há um recurso que suspendeu o seu castigo.

Mas, a qualquer momento pode ir borda fora, e há o risco de não pagar uma compra de um jogador como Cardozo.

Apesar de tudo, eram pelo menos 13 milhões de euros.

É dinheiro, e sem serem dadas as garantias bancárias, fez bem Luís Filipe Vieira em roer a corda.

Com tanto risco financeiro de levar um calote, mais vale Cardozo ficar na Luz do que em Istambul.

Até porque o dinheiro de uma venda de Cardozo é mais-valia financeira na quase totalidade para o Benfica.

O Benfica pagou bem por ele há seis anos, cerca de 11 milhões, mas o passe do jogador já foi amortizado.

A amortização desportiva foi em golos, a amortização financeira foi à contabilidade em seis exercícios. O activo intangível foi amortizado.

Assim, qualquer dinheiro que entrar, é lucro direto para o clube.

E será possível vender o jogador ainda este ano?

Se for por 10 milhões, não me parece impossível. Por 13, acho difícil. E por 15 parece-me uma fantasia pouco lúcida.

Contudo, mercado é mercado, e por vezes a especulação transforma o impossível em possível.

Sim, é verdade, mas pelo andar da carruagem, e o pedido público de perdão aponta nesse sentido, o mais certo é Cardozo continuar na Luz mais uma temporada. 

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publicado às 12:07

Nas últimas semanas, muitas foram as notícias sobre a eminente transferência de Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid.

Embora não existisse unanimidade, os valores apontavam para a astronómica soma de 100 a 120 milhões de euros. 

Em certos casos, dizia-se que esse valor incluíria o passe de outros jogadores do Real Madrid (Di Maria, Coentrão, etc), e que poderia diminuir para cerca de 80 milhões, se eles fossem incluídos no negócio.

Seja como for, a imprensa do futebol parecia dar como adquirido que iria ser batido o recorde de transferências, no valor de 94 milhões de euros e ainda na posse de de Cristiano Ronaldo, quando em 2009 se mudou do Manchester United para o Real Madrid. 

Como é evidente, aquilo que sei é o que vem escrito na imprensa, e portanto não faço ideia se Bale será ou não transferido este ano, e a ser porque valor se fará a operação.

Porém, parece-me interessante investigar a questão do valor da transferência. Será que Bale vale 120 milhões? Ou mesmo 100 milhões de euros?

Qual o valor de mercado do jogador? E como se chega a esse valor?

A empresa brasileira Pluri Consultoria, que publica todos os anos uma lista dos 60 mais valiosos jogadores de futebol do mundo, considerou que no final da época de 2012 o jogador Gareth Bale era o 17º mais valioso do mundo, com um valor de mercado de 39 milhões de euros.

E, em Abril último, já perto do final da época de 2013, o site alemão TransferMarket colocava Bale apenas um lugar acima, no 16º lugar, com um valor de 42 milhões de euros, semelhante ao de Mário Gotze, Sergio Busquets, Juan Mata ou Frank Ribery. 

Portanto, e apesar da excelente época 2012/2013 que fez, Bale não subira muito o seu valor para os obervadores de mercado, não passando da quinta posição entre os jogadores que actuam na Premier League inglesa, atrás de Rooney, Kun Aguero, Van Persie e David Silva. 

Como explicar então que um jogador que em Abril estava avaliado em 42 milhões possa em Agosto valer 100 ou mesmo 120 milhões?

Para analisar o valor de mercado de um jogador é preciso avaliar as suas características: a sua performance, a sua integração numa equipa, e o potencial gerador de receitas para o clube.

Comecemos pela "performance". Bale tem 24 anos, feitos a 16 de Julho, e está portanto na idade perfeita para dar um salto na carreira, quase a atingir a maturidade como jogador mas ainda com uma força física impressionante. 

É normalmente nesta idade que acontece um pulo salarial e Bale já ganha perto de 5 milhões de euros por ano. Se ficar no Tottenham esta época, terá provavelmente direito a um aumento de salário substancial.

Dotado de um estupendo pé esquerdo, Bale evoluiu de defesa-esquerdo para extremo-esquerdo, e depois para extremo à solta, a quem o treinador dá inteira liberdade para vaguear por onde quer.

É muito rápido, forte e possante, e começou por ser notado pela forma eficaz como batia livres, marcando muitos golos.

No entanto, nas últimas duas épocas, sobretudo na última, marca cada vez mais golos em andamento, embora quase só com o pé esquerdo. 

Em Abril de 2006, tornou-se no segundo mais jovem jogador de sempre a estrear-se no Southampton, com apenas 16 anos e 275 dias. Marcou nessa época dois golos, ambos de livre directo.

Ao todo, realizou 45 jogos com a camisola do Southampton, tendo facturado 5 golos, e em Maio de 2007 foi vendido ao Tottenham, por cerca de 10 milhões de euros. 

Já nos Spurs, começaram os problemas sérios. Uma rotura de ligamentos no tornozelo direito impediu-o de jogar mais esse ano, e mesmo a época seguinte, 2008-2009, ficou seriamente comprometida, tendo Bale jogado muito pouco.

Os problemas continuaram: em Junho de 2009 foi operado ao joelho e perdeu a pré-época. Mas a parte final dessa temporada já correu bastante bem, e renovou com o Tottenham em Maio de 2010.

A partir daqui é quase sempre a subir.

O número de golos marcados aumenta: serão 11 no final da época, seguindo-se 12 na época seguinte, 2011-12.

Embora jogasse a extremo-esquerdo cada vez mais vezes, só no início da última época é que muda defitivamente de número e de posição. Troca o 3 pelo 11 e declara que não mais será um "defesa-esquerdo". 

A mudança definitiva faz explodir a sua importância na equipa. Já com André Villas-Boas como treinador, marca um total de 26 golos e anda literalmente com os colegas às costas, levando-os ao quinto lugar na Premier League.

No entanto, e apesar de vários títulos individuais, Bale nunca venceu qualquer título por equipas, nem sequer uma taça. E na Europa, o Tottenham não passou dos quartos-de-final da Liga Europa...

Para complicar a situação, a velha lesão no tornozelo direito voltou a dar problemas, afastando Bale durante alguns jogos.

O seu estilo espectacular de corrida é a sua imagem de marca, bem como os poderosos pontapés, mas o tornozelo direito é o seu calcanhar de Aquiles, por assim dizer.

Para além disso, Bale também não tem grande sorte com a Seleção Nacional pela qual joga. O seu País de Gales não será nunca um concorrente à altura de um Europeu ou de um Mundial de Futebol, o que significa que ele não pode aproveitar esses palcos para se valorizar. 

Harry Redknapp, que o lançou como extremo-esquerdo, é um dos seus principais apreciadores, e considera-o "um talento impressionante, que tem melhorado sempre, um jogador de classe mundial, logo atrás dos Messis e dos Ronaldos". 

Sim, é evidentemente um excelente jogador, mas ao ponto de valer 120 milhões de euros?

Terá Bale um potencial grande de atração de novas receitas? É que encher as bancadas de White Hart Lane não é exactamente o mesmo de enchê-las no Santiago Bernabéu. 

Também não parece provável que as audiências televisivas do Real dêem um pulo muito grande só por causa de Bale, ou que o número de camisolas vendidas com o seu número seja muito espantoso na Ásia ou na América.

Bale ainda não é uma estrela mundial, e não tem uma imagem fantástica e "cool", que possa ser rentabilizada, como se passou com Beckham.

Por outro lado, e esse pode ser um problema grande, a presença de Bale, se o Real pagar por ele os tais 100 ou 120 milhões, poderá desestabilizar a hierarquia salarial da equipa.

Será que ele vai ganhar mais do que Ronaldo ou do que Ozil, o segundo jogador mais valioso do Real? Ficará à frente de Casillas? 

E como lidará Cristiano com a ideia de que já não é o recorde de transferências do mundo? Não será esse um factor de instabilidade adicional para o seu ego susceptível, ainda por cima sabendo todos nós que Cristiano marca por ano o dobro dos golos de Bale?

Bale é um excelente jogador e também profissional, e a sua vida pessoal, bem como o seu comportamento fora do campo não acusam qualquer falha preocupante. Porém, 100 milhões é muito dinheiro, e atendendo a que o potencial de receitas que Bale pode gerar é inferior às que gerou até agora Ronaldo, não se compreende bem como pode o Real admitir pagar tanto dinheiro por ele.

Bem sei que cada transferência é uma história, uma narrativa original, e há sempre um elemento muito especulativo no mercado de transferências, mas mais do que 80 milhões por Bale parece-me um mau negócio.

Até porque há o tal tornozelo, que já deu problemas graves...

Por fim, temos de considerar a dimensão do "fair play financeiro" da UEFA.

Arsene Wenger, treinador do Arsenal, já veio a público dizer que se a transferência de Bale se realizar por 120 milhões de euros então o "fair play financeiro" não existe.

Ele sabe do que fala.

Uma das críticas que os clubes ingleses fazem à UEFA é a de que ela permite que em Espanha existam 2 clubes (Real e Barça) que ganham muito mais que os outros clubes europeus em direitos televisivos, e que gastam fortunas em jogadores, sem depois levarem as perdas efectivas às suas contas, pois nem Real nem Barça são sociedades comerciais, e podem realizar muita "contabilidade criativa"...

É um ponto relevante, mas a UEFA não deu qualquer resposta.

 

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publicado às 15:15


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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