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Ontem, num artigo a propósito dos 10 anos de presidência de Luís Filipe Vieira, o jornal Record noticiou que a Benfica TV já tem 230 mil assinantes.

Em meados de Setembro, há pouco mais de um mês, o canal anunciara ter chegado aos 190 mil assinantes em apenas 2 meses.

Ou seja, entre o meio de Julho, quando o projeto arrancou, e o meio de Setembro, a Benfica TV tivera uma média mensal de assinantes de 95 mil.

No mês e meio seguinte, entre meados de Setembro e finais de Outubro, conseguiu apenas mais 40 mil, o que representa uma quebra no ritmo, mas ainda assim uma boa média mensal.

Será possível o número de assinantes ainda crescer mais esta época?

Se pensarmos que a recessão económica ainda está forte, é provável que o número de assinantes não cresça muito mais este ano.

Porém, se a performance da equipa no campeonato começar a melhorar, isso pode ser possível.

Em Janeiro, haverá um Benfica-FC Porto na Luz, para o campeonato, e talvez aí se consiga atingir o pico da época, em termos de assinantes.

Se o Benfica vencer esse jogo, aproximando-se do rival, e o campeonato ficar aberto até ao fim, o número de assinantes terá tendência para continuar a crescer.

Porém, se o Benfica perder, ficando já muito longe do FC Porto, é provável que o número de assinantes não cresça muito mais.

 

E, do ponto de vista do negócio, o que valem 230 mil assinantes mensais?

Numa entrevista recente ao Diário Económico, o director financeiro Domingos Soares de Oliveira declarou que os custos da Benfica TV andavam pelos 9 milhões de euros por ano, incluindo aqui os custos com pessoal, os custos com as transmissões dos jogos em casa, e os direitos pagos às várias ligas que a Benfica TV transmite, incluindo a Premier League.

Na mesma entrevista, Soares de Oliveira dizia que, em receitas publicitárias, seja no estádio, seja em antena, a Benfica TV já tinha garantidos 8 milhões de euros, tanto quanto o clube fazia no passado com a venda dos direitos totais à Olivedesportos.

Além disso, o director financeiro, sem ser muito explícito e sem revelar pormenores, reconhecia que existia entre a Benfica TV e os operadores de cabo (Meo, Zon, Vodafone, Cabovisão, etc) um acordo de partilha de receitas.

Ou seja, do total recebido em subscrições da Benfica TV, uma parte fica para o operador, e uma parte fica para a Benfica TV.

A questão é como se faz esta divisão.

Segundo fontes bem informadas, dizem-me que, até certo número de assinantes é 50 por cento para cada parte, e a partir daí é tudo para a Benfica TV.

 

Admitamos então que, nos primeiros 100 mil assinantes, as receitas se dividem pela metade, e que a partir daí vão na totalidade para o Benfica.

Nesse caso, qual seria a receita líquida de impostos que o clube obteria por ano?

Se o preço da subscrição são 9,9 euros, descontado o Iva, o valor é de 7,623 euros.

Metade disto são 3,811 euros. Esse seria o valor individual de receita que a Benfica TV receberia por mês, vindo dos primeiros 100 mil assinantes.

Teríamos depois de multiplicar 3,811 euros por 100 mil assinantes e depois por 12 meses, o que dava um valor de 4.573.800 euros.

 

A esse valor teríamos agora de somar a parcela em que a totalidade da receita vai directa para a Benfica TV, o valor gerado pelos restantes 130 mil assinantes.

Descontando o Iva, teríamos 7,623 euros vezes 130 mil assinantes vezes 12 meses, o que dá 11.891.880 euros.

Assim, somando as duas parcelas, teríamos uma receita líquida superior a 16 milhões de euros, cerca de 16.465.680 euros.

A este total, temos de somar os 8 milhões de receitas publicitárias e subtrair os 9 milhões de custos do canal.

No final, ficamos com 15,46 milhões de euros, e é esse o lucro líquido previsto com 230 mil assinantes.

 

É isso bom ou nem por isso?

Bem, se compararmos com o que o Benfica ganhava até à época passada, é muito melhor, é mesmo o dobro, pois o Benfica recebia da Olivedesportos um pouco mais de 7,5 milhões de euros, e agora ganhará 15,46 milhões.

Ou seja, melhorou bastante, e fez expandir a sua base de receitas, isso é evidente.

Mas, é preciso recordar que a última oferta da Olivedesportos era de 22,2 milhões de euros, por ano!

Comparando com esse valor, ainda estamos abaixo, a cerca de 2/3.

Para chegar a uma receita líquida de 22,2 milhões de euros por ano, a Benfica TV terá de aproximar-se dos 300 mil assinantes, mais coisa menos coisa.

É um número alto, e não sendo impossível de atingir ainda este ano, só com muita ajuda de Jorge Jesus e dos jogadores é que ele se tornará uma realidade! 

 

Além disso, há ainda outro factor a levar em consideração.

Quem tem ido aos jogos na Luz, como eu, tem notado que as assistências têm estado um pouco abaixo do que era esperado. Nos jogos para o campeonato, não se chegou ainda aos 40 mil espectadores.

Será a Benfica TV uma das causas da quebra de espectadores na Luz?

É possível que sim, mas é difícil estimar quantos preferem pagar 9,9 euros e ver dois jogos no sofá, em vez de irem ao estádio.

Pode acontecer, principalmente para quem está fora de Lisboa.

Um sócio de Coimbra, Famalicão ou Viana, é capaz de preferir ficar em casa do que fazer a viagem até à Luz, e portanto a subida de receitas da Benfica TV pode implicar uma ligeira quebra de receitas no estádio, aquilo a que os economistas chamam "efeito de substituição".

 

Em resumo, o que se pode dizer até agora é que a Benfica TV está a correr bem, o clube melhorou as suas receitas televisivas, comparando com o ano passado, mas ainda não chegou ao valor mágico que Vieira deseja, batendo a última oferta da Olivedesportos.

E, para já, o número de espectadores na Luz diminui.

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publicado às 14:06

Depois de mais uma jornada da Liga dos Campeões, talvez agora já muitos dos meus leitores estejam convencidos que, como aqui escrevi, tanto Benfica como FC Porto têm mínimas possibilidades de chegar à final.

O FC Porto, o que é raro, está a realizar uma Champions muito abaixo do que é normal.

Perdeu, em casa, dois jogos seguidos, contra o Atlético de Madrid e contra o Zenit.

Embora sejam duas boas equipas europeias, nenhuma delas é considerada um grande tubarão.

O FC Porto, é bom recordar, era o cabeça de série, o clube que vinha do Pote 1.

Mas, depois de perder dois jogos, começa a ser extraordináriamente difícil aspirar a mais do que a queda para a Liga Europa.

Com apenas 3 pontos, os azuis e brancos têm de ir a São Petersburgo, o que já é difícil, pois é uma viagem longa, e têm de vencer, o que é muito complicado.

Além disso, têm de ir ao Vicente Calderon, a casa do Atlético, que este ano tem a equipa mais forte dos últimos 30 anos.

À primeira vista, parece uma missão impossível. Mas, mesmo que vençam um dos jogos, não é certo que sigam em frente.

Agora, já não se irão ouvir as frases de Lucho ou do presidente, sobre o gozo que lhes daria ir a uma final disputada na Luz...

Mas, o Benfica não está muito melhor.

Depois de ter vencido em casa um Anderlecht fraquito, e de ser trucidado por um Paris Saint Germain galáctico, que não ganhou por mais porque não quis, o Benfica tinha de ganhar ao Olympiakos em casa.

No entanto, não o conseguiu, e o empate 1-1 até pareceu um pouco lisongeiro.

Quem foi ao estádio, como eu, viu um Benfica sem grande chama ou eficácia, na primeira parte, e que podia ter ido para o balneário a perder por mais do um golo.

Depois, houve um dilúvio, deixou de ser jogo para passar a ser lotaria, e só um frango do Roberto nos permitiu um milagroso empate.

Ontem, ficou confirmado que Roberto não serve para este nível, só com aquele falhanço tirou dois pontos aos gregos...

É claro que o Benfica até pode vencer na Grécia, e é cedo para dizer que está fora de combate, mas fazendo um balanço dos três primeiros jogos, o panorama não é famoso.

A jogar assim, o Benfica é pior do que o Olympiakos, e portanto dificilmente seguirá em frente.

O mais provável, neste momento, é que as duas equipas portuguesas sigam para a Liga Europa, e não para os oitavos-de-final da Champions. 

Como já aqui escrevi, era um delírio tonto pensar que Benfica ou FC Porto podiam chegar à final.

Não têm nem talento, nem confiança, nem capacidade para isso.

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publicado às 16:09

Em Junho, muitos foram os que se espantaram com o "timing" da venda dos jogadores James e João Moutinho ao Mónaco.

Se o mercado só fechava a 31 de Agosto, porque é o que o FC Porto realizava a venda ainda em Junho?

A razão é simples de explicar: as contas dos clubes acompanham a época desportiva, e são apresentadas num ano que se inicia a 1 de Julho e termina a 31 de Junho.

Ora, na época 2011-2012, o FC Porto tinha apresentado um prejuízo de 35,7 milhões de euros, o primeiro resultado negativo depois de cinco anos consecutivos de lucros.

Sendo assim, o FC Porto tinha de vender jogadores para voltar aos lucros.

E assim fez: ainda em Agosto de 2012, vendeu Hulk e Álvaro Pereira.

No entanto, apenas essas duas vendas não chegavam.

Hulk foi bem vendido, mas tinha sido comprado caro, e portanto a mais valia do clube não era fabulosa. E Álvaro Pereira também não foi uma venda de grande singnificado.

Se o FC Porto tivesse apenas vendido esses dois jogadores até 31 de Junho de 2013, provavelmente teria de apresentar prejuízos pelo segundo ano consecutivo.

Para o evitar, o FC Porto antecipou a venda de James e de João Moutinho ao Mónaco, fazendo-a entrar antes de 31 de Junho de 2013, para que pudesse apresentar lucros no exercício.

A venda, de um valor global de 70 milhões de euros, era bastante importante, mas normalmente teria sido feita mais para a frente no Verão, talvez em Julho ou mesmo em Agosto.

Mas, e essa é a prova de que o FC Porto é muito bem gerido, o clube conseguiu convencer o comprador a realizar o negócio ainda em Junho, e regressou assim aos lucros, apresentando um total de 20,3 milhões..

Na verdade, não havia outra alternativa.

As receitas de bilheteira tinham descido, devido à crise económica; o crescimento dos prémios da UEFA face ao ano anterior era de apenas 6 milhões de euros; e as receitas televisivas só tinham crescido pouco, menos de 1 milhão de euros.

Só com a receita extraordinária da venda desses jogadores, ainda em Junho de 2013, foi possível o clube apresentar lucros.

É mais um exemplo de como a gestão é eficaz e bem feita no FC Porto, e de que o modelo de negócio, que funciona há muitos anos, quase sempre produz bons resultados.

O FC Porto usa o modelo "import-win-export". Importa jogadores bons, vence muito, e depois exporta muito bem.

É com este modelo, um case study europeu de sucesso, que o clube sustenta financeiramente as suas contas, e se mantém sempre competitivo.

Há apenas um pequeno senão...

Como já vendeu no exercício anterior, para o próximo ano o FC Porto ou vende em Janeiro de 2014, ou terá de voltar a vender até final de Junho de 2014, caso contrário arrisca-se a novo ano com prejuízos. 

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publicado às 15:45

Há muitas maneiras diferentes de medir a performance de um treinador, mas nas escolas de economia do Desporto, há uma que é objectiva e aceite por todos.

É a percentagem de vitórias, ou "win percent".

Em desportos como o basquetebol ou o futebol americano, é simples, pois não existem empates. Ou se ganha, ou se perde.

Assim, se em 8 jogos, o treinador tiver ganho 6 e perdido 2, tem uma percentagem de vitórias de 75%, ou 6/8.

Mas, no futebol a coisa é mais complicada, pois o resultado dos jogos pode ser um empate. 

Ora, a percentagem de vitórias tem de levar em conta os empates, porque eles podem decidir a pontuação final dos clubes.

Não é a mesma coisa ter 6 vitórias, 1 empate e 1 derrota, ou ter 6 vitórias e 2 empates. 

Assim, criou-se uma convenção internacional para o futebol que diz que a percentagem de vitórias se deve calcular dando 2 pontos às vitórias, 1 ponto aos empates, e depois divindindo essa soma pela máxima pontuação possível de obter, o número de jogos vezes dois pontos.

Escolheu-se dar 2 pontos às vitórias porque assim é possível fazer uma comparação histórica com o passado, quando as vitórias valiam apenas 2 pontos e não 3, o que me parece correcto. 

Nesse caso, uma equipa com 6 vitórias, 1 empate e 1 derrota, teria uma percentagem de vitórias de: 6 vezes 2, mais 1 vezes 1, a dividir por um total de 8 vezes 2.

A fórmula seria ((6X2) + (1X1)/(8X2)), o que daria uma percentagem de vitórias de 81,25%, ou 13 pontos em 16 possíveis.

No caso em que a equipa tenha 6 vitórias e 2 empates, teríamos 14 pontos em 16 possíveis, ou uma percentagem de vitórias de 87,5%.

Portanto, ter mais empates, com o mesmo número de vitórias, dá um "win percent" mais elevado.

E é com este critério que se pode medir o trabalho de um treinador.

Qual é o "win percent" dos 3 principais treinadores portugueses até agora?

Paulo Fonseca disputou 10 jogos, 7 para o campeonato, 2 para a Champions e 1 na Supertaça.

Desses, venceu 8, empatou 1 e perdeu 1. Ou seja, em vinte pontos possíveis, conseguiu 17 (16 pelas 8 vitórias, mais 1 pelo empate).

O "win percent" de Paulo Fonseca, neste momento da época, é pois de 17/20, ou 85%, o que é muito bom.

E quanto a Leonardo Jardim, qual é o seu "win percent"?

O Sporting apenas disputou os 7 jogos do campeonato, tendo 5 vitórias e 2 empates.

Conseguiu pois 12 pontos em 14 possíveis, o que dá um "win percent" de 85,7%.

Leonardo Jardim está pois ainda melhor que Paulo Fonseca, embora se deva ressalvar que disputou menos 3 jogos.

Mas, é um resultado bastante bom. 

E quanto a Jorge Jesus?

O Benfica disputou 9 jogos, 7 para o campeonato e 2 para a Champions. Tem 5 vitórias, 2 empates e 2 derrotas. 

Portanto, o Benfica tem 12 pontos em 18 possíveis, o que dá um "win percent" de 66,6%.

Jorge Jesus está pois bastante abaixo de Paulo Fonseca e de Leonardo Jardim.

E qual o "win percent" habitual de Jorge Jesus nas épocas anteriores? 

Na primeira época, em que foi campeão, o "win percent" foi de 86,6%.

Na segunda, a sua pior, o "win percent" foi de 71%.

Na terceira, foi de 80%; e na última época, apesar de não ter ganho qualquer título, chegou aos 88%, o melhor resultado de sempre!

É certo que ainda só estamos no início da época, e estes resultados ainda se podem alterar muito.

Contudo, com apenas 66,6% de vitórias, Jesus está numa situação complicada.

Ou o Benfica começa a ganhar jogos sem parar, ou se esta média se mantiver, dificilmente festejará no final.

Nenhuma grande equipa, em Portugal, pode ficar baixo dos 80% e vencer alguma coisa...

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publicado às 11:15

Todos sabiam, no início da época, que Jorge Jesus já arrancava mais fragilizado do que qualquer outro treinador.

Apesar de ter feito uma temporada excelente, falhara em três momentos essenciais: no campeonato, e nas finais da Liga Europa e da Taça de Portugal.

A dor dessa tripla perda, quando as vitórias estavam ao alcance da equipa, criaram uma revolta e uma frustração generalizadas nos adeptos.

Além disso, criaram também uma depressão no próprio Jesus, e de caminho uma cisão na SAD, onde Vieira se viu sozinho contra todos (Moniz, Rui Costa, etc), na decisão de manter o treinador.

Foi, é evidente, uma decisão de alto risco, mas se olharmos não apenas para as finais perdidas e mais para o historial do treinador do Benfica, foi uma decisão que fazia sentido.

Com Jesus, o Benfica subiu a um patamar de qualidade diferente, tanto nas provas nacionais como nas europeias.

Internamente, apesar de só ter ganho um título e 3 taças da Liga, a percentagem de vitórias do Benfica de Jesus é superior à de todos os treinadores dos últimos vinte e tal anos!

E, na Europa, Jesus levou o Benfica da 27ª posição no ranking até à 8ª, tornando o Benfica cabeça de série na Liga dos Campeões, pela primeira vez no seu historial.

Mas, é verdade, a fragilidade existia, a decepção fora profunda, e por isso parecia essencial começar bem esta época.

Em termos de recursos, o Benfica até melhorou.

O plantel é rico em soluções, há muito bons jogadores e mesmo aqueles que se temia irem abandonar a Luz, acabaram por ficar.

Ficou Matic, ficou Cardozo, ficou Garay, ficou Salvio, e ainda chegaram quatro sérvios de qualidade: Markovic, Djuricic, Sulemani e Fejsa.

Portanto, o nível de qualidade de recursos à disposição de Jesus até subiu em relação ao ano passado.

E Vieira já disse recentemente que este era "o melhor plantel dos últimos 30 anos", e que "aspirava vencer taças europeias", dando a entender que ambicionava chegar à final da Champions, que este ano se disputa na Luz. 

Contudo, a época arrancou mal, com uma derrota na Madeira.

Depois, a equipa pareceu reequilibrar-se e teve quatro vitórias (Gil Vicente, Paços, Guimarães, Anderlecht) e apenas um empate aceitável, em Alvalade.

Os dois últimos jogos é que foram penosos.

O empate contra o Belenenses chegou a ser escandaloso, e a derrota em Paris foi humilhante.

No espaço de apenas cinco dias, tudo voltou a estar em causa.

Os adeptos culpam o treinador e os jogadores, que parecem cabisbaixos e desmotivados, e os jornais fazem capas dizendo que o jogo de Domingo é decisivo para a carreira de Jesus.

Mas, será que mudar o treinador resolve alguma coisa? É essa a decisão certa?

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a performance da equipa, não sendo miserável, está abaixo das expectativas criadas, sobretudo por Vieira, que não vendeu jogadores porque aspira a vencer taças!

A 5 pontos do FCP, e com já 3 pontos na Champions, nada está perdido, e não se pode considerar que tenha havido uma quebra pontual muito profunda, nem numa competição nem noutra.

Mas, é também preciso reconhecer que a equipa parece anémica, sem vontade de vencer, e que os jornais dizem existir problemas no balneário, com um mau relacionamento entre Jesus e os jogadores. 

Estaremos perante uma mini-crise, que com uma sequência de vitórias é afastada, ou perante algo mais profundo, uma quebra da eficiência do treinador, seja no campo técnico, seja no motivacional?

Será que Jesus deixou de saber gerir o grupo?

Estas são perguntas às quais é difícil responder, para quem não tem acesso aos segredos internos do balneário da Luz.

Porém, e admintindo que o cenário de saída de Jesus está em cima da mesa, alguém pode garantir que a equipa irá melhorar com outro treinador?

O mito da chicotada psicológica tem sido desmontado nos últimos anos por muitos estudos que comparam a eficiência das equipas antes e depois da mudança de treinador.

O que se tem verificado, em Inglaterra, Espanha ou Alemanha, onde o tema foi estudado com alguma profundidade, é que mudança de treinador não altera singificativamente os resultados de uma equipa.

De início, nos primeiros quatro ou cinco jogos, parece haver um efeito de "entusiasmo", nos jogadores e nos adeptos, e há melhores resultados.

Mas, à medida que a época avança, a performance da equipa regressa aos níveis em que estava com o antigo treinador.

O "efeito desestabilizador" da mudança tem-se verificado mais forte que o efeito "entusiasmo", e sendo os jogadores os mesmos, os resultados não mudam quase nada.

E também em Portugal esta regra parece confirmar-se.

O FC Porto perdeu dois campeonatos, em 2001 e 2005, porque mudou de treinadores a meio.

O Benfica, sempre que mudou de treinador a meio do ano, ou mesmo numa fase inicial (Fernando Santos), acabou pior do que estava.

O Sporting, todos sabemos, provou amargamente que as mudanças só nos atiram mais para baixo, embora seja curiosamente a única equipa portuguesa que conseguiu ser campeã num ano em que mudou de treinador, quando Inácio substituiu Materazzi.

Só que, seja cá, seja lá fora, esses são casos raros.

A norma é a mudança de treinador não resolver quase nada, a média de pontos da equipa pouco mexe. 

É importante no entanto, abrir uma excepção.

Se existe de facto um problema psicológico com o treinador, se ele está deprimido, é possível que a mudança tenha efeitos benéficos. Não sei se é essa a situação de jesus, mas espero que não.

O que me parece estar a acontecer no Benfica é outro cenário.

A verdade é que Vieira, ao decidir manter Jesus, criou uma cisão dentro da SAD e do clube, e portanto perdeu poder dentro da organização. 

Se a fraca performance da equipa se agravar, ele ficará também em causa, e poderá ter de sacrificar Jesus para recuperar o poder perdido em Julho. 

Nesse caso, a saída de Jesus deverá acontecer em Outubro ou Novembro, pois esse são os meses onde há mais saídas no futebol actual, pois se pensa que nessa altura ainda há possibilidades de recuperação.

Mas, fazer dele o bode expiatório de todos os males do Benfica, e dispensá-lo, trará resultados?

E quem será o substituto capaz de pegar agora na equipa?

É evidente que, se o Benfica perder contra o Estoril, ficando a 8 pontos do FC Porto, tudo se descontrola, mas atenção, o mais provável, (é isso que a história e a estatística mostram), é a época não melhorar muito com a mudança de treinador.

A chicotada psicológica é mesmo, quase sempre, um mito. 

Uma quebra momentânea em dois jogos, por mais desagradável que seja, não é um declínio comprovado e duradouro.

O Benfica de Jesus não desceu de patamar, apenas teve dois maus jogos.

Entrar em pânico pode ser pior do que manter a calma.

O que me parece essencial no Benfica é Vieira ressuscitar, no treinador e nos jogadores, a vontade de vencer.

Sem isso, nada se consegue.

 

 

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publicado às 10:22

Esta semana, ficou mais uma vez evidente que os clubes portugueses têm poucas hipóteses de chegar longe na Liga dos Campeões.

Na terça, o FC Porto foi derrotado em casa pelo cada vez mais forte Atlético de Madrid, que ganhou com justiça, e revelou ser uma equipa muito mais poderosa que a portuguesa.

Na quarta, o Benfica foi reduzido a escombros em meia hora pelo Paris Saint German de Ibrahimovic, e mostrou todas as suas evidentes fraquezas.

É certo que ambas as equipas podem aspirar a passar à fase seguinte, os oitavos de final, mas é um delírio pensar que podem ir muito mais longe do que isso.

O andamento de um Bayern, de um Borussia Dortmund, de um Arsenal, de um Real Madrid ou de um Barcelona, e até o andamento dos dois clubes com que os portugueses jogaram esta semana, é muito superior ao nosso, e não vale a pena alimentar ilusões.

Pelo simples facto da final se jogar este ano na Luz, logo os portugueses começaram a delirar.

De um lado, o Benfica, admitindo ser seu objectivo jogar a final em casa.

Do outro, o FC Porto, onde vários jogadores, como o capitão Lucho, falaram do gozo que lhes daria jogar uma final no campo do rival.

Sim senhor, e eles pensam que enganam quem?

Não seria melhor descerem à terra e deixarem-se de fantasias infantis?

A Champions não é para o nosso dente, essa é que é essa, e é quase impossível um clube português repetir a proeza do FC Porto de Mourinho.

Analisem-se só estas estatísticas simples, comparando a antiga Taça dos Campeões Europeus com a actual Liga dos Campeões.

Na antiga competição, existiram 37 finais, entre 1956 e 1992.

Os 74 clubes finalistas eram provenientes de 13 países diferentes, onde se incluíam os quatro grandes (Inglaterra, Itália, Alemanha e Espanha), mas também outros, como a Holanda, Portugal, a Jugoslávia, a Escócia, a Roménia, a França, a Grécia, a Bélgica ou a Suécia.  

Ou seja, todos estes países viveram a alegria de, pelo menos uma vez, colocar um clube nacional na final dos Campeões Europeus.

No caso português, houve oito finalistas (Benfica 7, FC Porto 1), o que dá uma proporção de 10,8 por cento de finalistas portugueses (8 em 74).

Podemos dizer, de forma simplista, que qualquer campeão português tinha uma probabilidade de 11 por cento de chegar à final!

Contudo, a partir de 1993, com a chegada da Liga dos Campeões, tudo mudou.

Em 21 anos de competição, apenas sete países tiveram finalistas na Champions, mas apenas 5 dos 42 finalistas não eram dos 4 países grandes!

Só o Ajax, o Marselha por duas vezes, o FC Porto e o Mónaco chegaram à final, os outros 37 finalistas eram sempre espanhóis, italianos, ingleses ou alemães.

No caso específico de Portugal, houve 1 finalista em 42, uma proporção de 2,5 por cento.

Portanto, entre a Taça dos Campeões Europeus e a Liga dos Campeões, a probabilidade de um clube português ir à final desceu a pique, de 11 para 2,5 por cento.

Os tubarões, que são muito mais na Champions, dominam sempre e todos os anos ganham mais dinheiro que os outros, aumentando ainda mais o fosso da desigualdade.

Sendo assim, e se os clubes portugueses desejam ganhar taças, melhor é que apostem na Liga Europa, onde a nossa possibilidade de chegar à final é muito maior.

Em 90 finais, juntando as antigas Taça das Taças e Taça UEFA, os portugueses tinham ido a três (Sporting e FC Porto nas Taças, Benfica na UEFA).

Desde que o formato mudou e há só uma competição, Liga UEFA/Europa, em onze épocas apenas, já cinco clubes portugueses estiveram na final (FC Porto 2, Sporting, Braga e Benfica).

E quem acha que financeiramente a Liga Europa é menos interessante, está a exagerar.

Em 2011/2012, o Benfica facturou 23 milhões de euros em prémios da UEFA, por ter chegado aos quartos de final da Champions.

Mas, o ano passado, com fase de grupos na Champions e depois caminhada até à final da Liga Europa, o Benfica chegou aos 22 milhões de euros de prémios, uma diferença quase irrelevante.

O caminho é pois esse: ir à fase de grupos da Champions, tentar chegar aos quartos; ou então deixar-se cair logo para a Liga Europa, tentando vencê-la.

Agora, pensar em ganhar a Champions é um puro delírio.

Os jogos do Dragão e de Paris são a prova disso. 

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publicado às 10:31


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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