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Todos sabiam, no início da época, que Jorge Jesus já arrancava mais fragilizado do que qualquer outro treinador.

Apesar de ter feito uma temporada excelente, falhara em três momentos essenciais: no campeonato, e nas finais da Liga Europa e da Taça de Portugal.

A dor dessa tripla perda, quando as vitórias estavam ao alcance da equipa, criaram uma revolta e uma frustração generalizadas nos adeptos.

Além disso, criaram também uma depressão no próprio Jesus, e de caminho uma cisão na SAD, onde Vieira se viu sozinho contra todos (Moniz, Rui Costa, etc), na decisão de manter o treinador.

Foi, é evidente, uma decisão de alto risco, mas se olharmos não apenas para as finais perdidas e mais para o historial do treinador do Benfica, foi uma decisão que fazia sentido.

Com Jesus, o Benfica subiu a um patamar de qualidade diferente, tanto nas provas nacionais como nas europeias.

Internamente, apesar de só ter ganho um título e 3 taças da Liga, a percentagem de vitórias do Benfica de Jesus é superior à de todos os treinadores dos últimos vinte e tal anos!

E, na Europa, Jesus levou o Benfica da 27ª posição no ranking até à 8ª, tornando o Benfica cabeça de série na Liga dos Campeões, pela primeira vez no seu historial.

Mas, é verdade, a fragilidade existia, a decepção fora profunda, e por isso parecia essencial começar bem esta época.

Em termos de recursos, o Benfica até melhorou.

O plantel é rico em soluções, há muito bons jogadores e mesmo aqueles que se temia irem abandonar a Luz, acabaram por ficar.

Ficou Matic, ficou Cardozo, ficou Garay, ficou Salvio, e ainda chegaram quatro sérvios de qualidade: Markovic, Djuricic, Sulemani e Fejsa.

Portanto, o nível de qualidade de recursos à disposição de Jesus até subiu em relação ao ano passado.

E Vieira já disse recentemente que este era "o melhor plantel dos últimos 30 anos", e que "aspirava vencer taças europeias", dando a entender que ambicionava chegar à final da Champions, que este ano se disputa na Luz. 

Contudo, a época arrancou mal, com uma derrota na Madeira.

Depois, a equipa pareceu reequilibrar-se e teve quatro vitórias (Gil Vicente, Paços, Guimarães, Anderlecht) e apenas um empate aceitável, em Alvalade.

Os dois últimos jogos é que foram penosos.

O empate contra o Belenenses chegou a ser escandaloso, e a derrota em Paris foi humilhante.

No espaço de apenas cinco dias, tudo voltou a estar em causa.

Os adeptos culpam o treinador e os jogadores, que parecem cabisbaixos e desmotivados, e os jornais fazem capas dizendo que o jogo de Domingo é decisivo para a carreira de Jesus.

Mas, será que mudar o treinador resolve alguma coisa? É essa a decisão certa?

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a performance da equipa, não sendo miserável, está abaixo das expectativas criadas, sobretudo por Vieira, que não vendeu jogadores porque aspira a vencer taças!

A 5 pontos do FCP, e com já 3 pontos na Champions, nada está perdido, e não se pode considerar que tenha havido uma quebra pontual muito profunda, nem numa competição nem noutra.

Mas, é também preciso reconhecer que a equipa parece anémica, sem vontade de vencer, e que os jornais dizem existir problemas no balneário, com um mau relacionamento entre Jesus e os jogadores. 

Estaremos perante uma mini-crise, que com uma sequência de vitórias é afastada, ou perante algo mais profundo, uma quebra da eficiência do treinador, seja no campo técnico, seja no motivacional?

Será que Jesus deixou de saber gerir o grupo?

Estas são perguntas às quais é difícil responder, para quem não tem acesso aos segredos internos do balneário da Luz.

Porém, e admintindo que o cenário de saída de Jesus está em cima da mesa, alguém pode garantir que a equipa irá melhorar com outro treinador?

O mito da chicotada psicológica tem sido desmontado nos últimos anos por muitos estudos que comparam a eficiência das equipas antes e depois da mudança de treinador.

O que se tem verificado, em Inglaterra, Espanha ou Alemanha, onde o tema foi estudado com alguma profundidade, é que mudança de treinador não altera singificativamente os resultados de uma equipa.

De início, nos primeiros quatro ou cinco jogos, parece haver um efeito de "entusiasmo", nos jogadores e nos adeptos, e há melhores resultados.

Mas, à medida que a época avança, a performance da equipa regressa aos níveis em que estava com o antigo treinador.

O "efeito desestabilizador" da mudança tem-se verificado mais forte que o efeito "entusiasmo", e sendo os jogadores os mesmos, os resultados não mudam quase nada.

E também em Portugal esta regra parece confirmar-se.

O FC Porto perdeu dois campeonatos, em 2001 e 2005, porque mudou de treinadores a meio.

O Benfica, sempre que mudou de treinador a meio do ano, ou mesmo numa fase inicial (Fernando Santos), acabou pior do que estava.

O Sporting, todos sabemos, provou amargamente que as mudanças só nos atiram mais para baixo, embora seja curiosamente a única equipa portuguesa que conseguiu ser campeã num ano em que mudou de treinador, quando Inácio substituiu Materazzi.

Só que, seja cá, seja lá fora, esses são casos raros.

A norma é a mudança de treinador não resolver quase nada, a média de pontos da equipa pouco mexe. 

É importante no entanto, abrir uma excepção.

Se existe de facto um problema psicológico com o treinador, se ele está deprimido, é possível que a mudança tenha efeitos benéficos. Não sei se é essa a situação de jesus, mas espero que não.

O que me parece estar a acontecer no Benfica é outro cenário.

A verdade é que Vieira, ao decidir manter Jesus, criou uma cisão dentro da SAD e do clube, e portanto perdeu poder dentro da organização. 

Se a fraca performance da equipa se agravar, ele ficará também em causa, e poderá ter de sacrificar Jesus para recuperar o poder perdido em Julho. 

Nesse caso, a saída de Jesus deverá acontecer em Outubro ou Novembro, pois esse são os meses onde há mais saídas no futebol actual, pois se pensa que nessa altura ainda há possibilidades de recuperação.

Mas, fazer dele o bode expiatório de todos os males do Benfica, e dispensá-lo, trará resultados?

E quem será o substituto capaz de pegar agora na equipa?

É evidente que, se o Benfica perder contra o Estoril, ficando a 8 pontos do FC Porto, tudo se descontrola, mas atenção, o mais provável, (é isso que a história e a estatística mostram), é a época não melhorar muito com a mudança de treinador.

A chicotada psicológica é mesmo, quase sempre, um mito. 

Uma quebra momentânea em dois jogos, por mais desagradável que seja, não é um declínio comprovado e duradouro.

O Benfica de Jesus não desceu de patamar, apenas teve dois maus jogos.

Entrar em pânico pode ser pior do que manter a calma.

O que me parece essencial no Benfica é Vieira ressuscitar, no treinador e nos jogadores, a vontade de vencer.

Sem isso, nada se consegue.

 

 

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publicado às 10:22

Há uns meses atrás, Jorge Jesus estava nas ruas da amargura.

Tinha perdido o campeonato, e ajoelhado no estádio do Dragão, impotente para travar o FC Porto.

Tinha chorado no Jamor, por ter perdido a Taça contra o Guimarães.

E, ainda por cima, tinha sido enxovalhado por Cardozo, mostrando que não tinha mão nos jogadores.

Em suma, era um "looser", um homem a quem ninguém dava futuro.

Porém, de repente, à medida que o Benfica tem vindo a melhorar e a ganhar jogos, Jesus tem sido transformado num perigosíssimo manipulador de árbitros, e num arruaceiro que falta ao respeito à polícia!

Quem tenha ouvido o treinador do FC Porto, Paulo Fonseca, que defendeu que os empates de FC Porto e Sporting se deveram a erros de arbitragem que só existiram devido à maliciosa "estratégia de Jorge Jesus", não terá dúvidas.

Para Paulo Fonseca, Jesus é Deus, pois é omnipotente, consegue mandar em todos (nos árbitros e até na polícia); e omnipresente, conseguindo ganhar em três campos ao mesmo tempo: Alvalade, Amoreira e Guimarães.

Mas, há mais. Mal se viram as imagens de uma confusão no relvado de Guimarães, lá vieram muitos acusar Jesus de ter "agredido" a polícia! Crime, berram eles! Castigo e já, berram eles! 

Acho que devíamos ter um pouco mais de lucidez, pois transformar Jesus num exterminador implacável que ainda por cima dá "tau-tau" na polícia, é um manifesto exagero.

A situação em Guimarães descontrolou-se, é verdade, e Jesus cometeu actos incorrectos, mas houve mais coisas que correram mal.

Primeiro, a segurança falhou, deixando entrar adeptos para dentro do campo.

Segundo, na entrada dos adeptos não havia qualquer intenção violenta ou maligna. Eram apenas jovens eufóricos com a vitória, que queriam pedir as camisolas dos seus ídolos, os jogadores do Benfica.

Por isso, e em terceiro lugar, parece-me que a avaliação que a polícia e a segurança fizeram da gravidade da situação foi exagerada.

Não me parece necessário usar tanta força contra dois ou três rapazes que só querem abraçar os seus jogadores.

Acho que houve algum excesso de zelo da polícia, talvez não fossem necessários cinco matulões para neutralizar um jovem, nem talvez fosse necessário colocar joelhos nas costas ou dobrar braços.

Em quarto lugar, acho que Jorge Jesus teve uma reação semelhante aquela que muitos de nós temos quando vemos excesso de força da polícia sobre alguém. Normalmente, isso incomoda as pessoas, que tentam pedir à polícia para não ser tão dura.

Jesus deu mais um passo, e fez aquilo que muitos fazem quando há uma briga: tentou separar os intervenientes.

Tal como os professores tentam separar os alunos à bulha no recreio, ou como os amigos tentam separar alguém numa rixa de bar, nessa tentativa há que fazer algum esforço físico, e isso passou-se também com Jorge Jesus.

Foi incorreto? Sim, foi, pois não se deve fazer isso quando uma das partes é um agente da autoridade.

Contudo, não me parece que tenha existido qualquer agressão, ou tentativa de agressão. O que houve foi excesso de empolgamento na tentativa de separação.

É claro que é compreensível a excitação acusatória em que ficaram os adversários do Benfica. Se o castigo a Jesus neutralizar o treinador do Benfica algum tempo, isso é um bónus excelente para os adversários do Benfica.

Mas, também não vale a pena exagerar. Uma incorreção que devia ter sido evitada, não é o mesmo que uma agressão.

Quanto à "manipulação de árbitros" de que fala o treinador do FC Porto, é mais do mesmo.

Em Portugal, quem perde pontos, arranja sempre teorias da conspiração para justificar os seus fracassos.

Porém, talvez devessemos dar mérito a quem o teve. O Estoril fez um belo jogo, causou imensos problemas ao FC Porto e mereceu empatar.

O futebol é bem mais simples do que as pessoas pensam.

Quem joga bem, normalmente é recompensado, e isso passou-se com o Estoril, e já agora, com o Rio Ave, que também jogou bastante bem em Alvalade.  

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publicado às 10:45

O "caso Cardozo" ameaçava tornar-se um sério melodrama, e por isso teve de se lhe colocar um ponto final.

Ontem, o jogador falou à Benfica TV, e pediu desculpa a treinador, colegas e adeptos, pelos seus excessos na final da Taça de Portugal.

Foi um acto necessário, que só pecou por tardio.

70 dias para pedir desculpa, é muito dia. 

Um triste episódio que podia ter sido resolvido logo em Maio, uma ou duas semanas depois de ter acontecido, prolongou-se pelo Verão, e tornou-se uma telenovela um pouco patética.

Julgo que o Benfica não obrigou Cardozo a pedir desculpas porque estava convencido da sua venda. Como ela não se deu, é preciso meter o contador a zero outra vez. 

E, com este pedido de desculpas, as coisas mudam mesmo.

Perdoado e arrependido, Cardozo pode perfeitamente treinar-se com os colegas, ser integrado na equipa e jogar, caso Jesus o entenda.

Seja ou não vendido até ao fecho do mercado, estará em actividade, e não num exílio forçado em Sesimbra, ou noutro local qualquer.

É disparatado ter um jogador como Cardozo nas suas fileiras e não o usar, e foi isso que os adeptos quiseram dizer, com os seus assobios no final do jogo com o São Paulo.

Embora na época passada Cardozo tenha marcado menos golos que Lima no campeonato, o mito do Tacuara goleador fulgurante continua vivo na Luz, sobretudo quando a equipa fica a zero.

Com este pedido de desculpas, voltou o juízo a todos, e a situação regressará ao normal.

O que não se pode dizer, como disse o empresário, é que havia o risco do jogador desvalorizar por causa de estar parado. Isso não é verdade.

Cardozo não é um menino imberbe, de méritos desconhecidos. Marca muitos golos por ano, há muitos anos. É o melhor goleador estrangeiro da história do Benfica.

Não é por falhar um mês de treinos que perde valor. Se algum valor perdeu, foi por se ter comportado mal, à vista de todos, com recriminações inaceitáveis.

Isso sim, tira valor, pois os clubes não gostam de "troublemakers" nos seus plantéis.

Não se pode portanto dizer que a transferência para o Fenerbahçe falhou por causa do "melodrama da Taça de Portugal". As razões foram outras.

O presidente do Benfica não quis correr riscos financeiros e fez bem.

O Fenerbahçe está envolvido em graves suspeitas, e só se inscreveu na Liga dos Campeões porque há um recurso que suspendeu o seu castigo.

Mas, a qualquer momento pode ir borda fora, e há o risco de não pagar uma compra de um jogador como Cardozo.

Apesar de tudo, eram pelo menos 13 milhões de euros.

É dinheiro, e sem serem dadas as garantias bancárias, fez bem Luís Filipe Vieira em roer a corda.

Com tanto risco financeiro de levar um calote, mais vale Cardozo ficar na Luz do que em Istambul.

Até porque o dinheiro de uma venda de Cardozo é mais-valia financeira na quase totalidade para o Benfica.

O Benfica pagou bem por ele há seis anos, cerca de 11 milhões, mas o passe do jogador já foi amortizado.

A amortização desportiva foi em golos, a amortização financeira foi à contabilidade em seis exercícios. O activo intangível foi amortizado.

Assim, qualquer dinheiro que entrar, é lucro direto para o clube.

E será possível vender o jogador ainda este ano?

Se for por 10 milhões, não me parece impossível. Por 13, acho difícil. E por 15 parece-me uma fantasia pouco lúcida.

Contudo, mercado é mercado, e por vezes a especulação transforma o impossível em possível.

Sim, é verdade, mas pelo andar da carruagem, e o pedido público de perdão aponta nesse sentido, o mais certo é Cardozo continuar na Luz mais uma temporada. 

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publicado às 12:07

Nas minhas aulas de Economia do Desporto, cadeira que lecciono na Universidade Católica, a estudantes de economia e gestão, examinei este ano o "case study" da Benfica TV, pois é um projecto muito original, corajoso, mas também financeiramente arriscado.

A Benfica TV é original, pois não existe no futebol europeu ou mundial nenhum caso de clubes que vendam os direitos televisivos dos jogos em casa a si próprios. Existem alguns clubes - Manchester United, Chelsea, Real Madrid, Barcelona - que têm televisões próprias (acessíveis de graça também em Portugal), mas nenhuma delas transmite jogos ao vivo e em casa.

A razão é simples: todos esses clubes recebem fortunas colossais dos operadores de Tv (ou da Liga, no caso inglês) pelos seus direitos televisivos, e portanto não têm qualquer incentivo para fazer transmissões directas nos seus próprios canais.

No entanto, é precisamente esse o problema em Portugal, e foi isso que levou o Benfica a avançar para uma televisão própria.

Até à época que terminou em Junho, o Benfica ganhava apenas cerca de 8 milhões de euros em direitos pela transmissão dos jogos em casa, uma quantia baixíssima.

Só para efeitos de comparação, diga-se que o Granada, uma das menos cotadas equipas que disputa a Liga espanhola, ganhou em 2013 cerca de 12 milhões de euros. E o Valência, a terceira equipa de Espanha, ganhou 42 milhões de euros.

Sentindo-se injustiçado, o Benfica decidiu não renovar o contrato com a Olivedesportos/PPTV, a empresa que nas últimas décadas tem dominado o mercado de direitos televisivos em Portugal.

Foi uma decisão corajosa, e ainda por cima com o apoio esmagador da maioria dos sócios do Benfica, que há muito desejavam esta separação de uma empresa que, mal ou bem, identificam como "aliada" do rival maior do norte, o FC Porto.

Durante algum tempo, o Benfica ainda esperou que aparecesse um concorrente da Olivedesportos, para furar o monopólio desta, mas tal não veio a acontecer. Paes do Amaral ainda tentou, mas desistiu da ideia.

Apesar dos esforços do presidente da Liga, Mário de Figueiredo, que tenta lutar pela contralização na Liga dos direitos televisivos, a verdade é que o mercado está atrofiado pelo monopólio da Olivedesportos/PPTV, na compra dos direitos; e também pela SportTV, na venda aos consumidores finais.

Politicamente, a entrada da Benfica TV no jogo é uma oportuna decisão política, pois liberta o Benfica do jugo da Olivedesportos, e fura o monopólio desta pela primeira vez, o que é salutar para todos.

No entanto, há riscos importantes no projecto da Benfica TV, sobretudo financeiros, e é importante analisá-los com minúcia, para que se possa perceber a dimensão da aposta de Luís Filipe Vieira.

Passando a Benfica TV a um "canal premium", com uma mensalidade de 9,9 euros, a televisão da Luz passa a ser concorrencial com a SportTV, mas é evidente que precisava de mais do que apenas 2 jogos em casa do Benfica por mês. E os campeonatos gregos ou brasileiro não têm um poder de atração muito grande.

Assim, o Benfica teve de subir a parada e disparou um tiro certeiro e ambicioso: comprou os direitos da Premier League para os próximos 3 anos, por cerca de 3 milhões de euros por ano.

É uma aposta forte, ainda por cima coincidindo com o regresso de Mourinho a Inglaterra. Só faltava Ronaldo regressar a Manchester para ser ainda mais certeira.

Porém, será suficiente para criar "value for money"? Sem jogos da Champions League, sem jogos da Liga Europa, sem jogos do campeonato português tirando os que se passem na Luz, conseguirá o Benfica tornar a Benfica TV numa mina de ouro?

Para apreciar esse objectivo, teremos de fazer contas. Se o Benfica conseguir chegar a 8 milhões de euros por ano de receita líquida (já deduzidos os custos), ficará exactamente na mesma, ou seja, ganhará o mesmo que ganhou em 2012/2013. 

Acima desse valor, o Benfica estará a ganhar mais dinheiro do que nas últimas épocas. Mas ganhará mais do que podia ganhar? Recorde-se que a última oferta feita pela Olivedesportos/PPTV foi de 22,5 milhões de euros por ano, oferta essa que foi rejeitada pelo Benfica, conforme comunicado enviado à CMVM há uns meses atrás.

É portanto esse o julgamento que deve ser feito.

Abaixo de 8 milhões de receita líquida, a Benfica TV é um mau negócio.

Entre 8 e 22,5 milhões de euros de receita líquida, a Benfica TV é um bom negócio, mas não tão bom como a última oferta da Olivedesportos.

Acima de 22,5 milhões de euros de receita líquida por ano, a Benfica TV é um excelente negócio para o Benfica.

 

Estabelecido este critério para avaliar, vamos agora tentar calcular qual o número de assinantes que o Benfica precisa para atingir cada uma destas metas.

Quais são os custos da Benfica TV? Além dos referidos 3 milhões de euros pelos direitos da Premier League, há os outros direitos dos outros campeonatos, os custos de transmissão dos jogos na Luz, os custos com o pessoal necessário para a empresa funcionar, e coisas assim.

Embora eu não tenha acesso a esses números, parece-me razoável estimar que os custos da Benfica TV andarão à volta de 6 milhões de euros por ano.

E quais são as receitas?

Serão essencialmente as receitas dos assinantes da Benfica TV, que pagarão 9,9 euros mensais, e ainda alguma receita publicitária adicional que se consegue devido à transmissão dos jogos. Embora não seja fácil de calcular este valor, é sabido que a receita publicitária nos "canais premium" de desporto não é muito elevada, e por isso parece razoável estimar que no máximo a receita publicitária será 10 por cento da receita total. 

Há ainda um problema adicional: é que nem toda a receita das subscrições vai para a Benfica TV, pois os operadores (MEO, Zon, etc) ficam com uma parte da receita até um determinado nível de assinantes. Mais uma vez, não tenho acesso a essa cláusula, mas podemos estimar que metade da receita poderá ficar nos operadores até que sejam atingidos os 30 mil assinantes em cada operador. 

Assim sendo, qual será a receita líquida da Benfica TV com 100 mil assinantes, o número que o clube já atingiu?

O valor total da receita será de 100 mil vezes 9,9 euros, ou seja 990 mil euros por mês. Se multiplicarmos por 12 meses, temos 11,88 milhões de euros por ano. 

Contudo, para os primeiros 60 mil assinantes, a receita para a Benfica TV será apenas de metade, pois metade irá para o operador, e só os restantes 40 mil assinantes vão directos para receita da Benfica TV.

A receita total neste caso será apenas de 8,316 milhões de euros por ano (60 mil assinantes vezes metade de 9,9 euros vezes 12 meses; e 40 mil assinantes vezes 9,9 euros vezes 12 meses).

A somar a esse valor teremos ainda a receita dos anúncios na Benfica TV, cerca de 10 por cento dos 11,88 milhões, ou 1, 188 milhões. Portanto a receita total final dará cerca de 9,5 milhões de euros.  

Subtraindo a este valor os 6 milhões de euros em custos, teremos uma receita final líquida de apenas 3,5 milhões de euros, o que é muito abaixo dos 8 milhões que o clube recebia até ao final da última época. 

Portanto, com 100 mil assinantes, a Benfica TV ainda não é bom negócio para o clube, pois dá menos de metade da receita líquida que o clube recebia da Olivedesportos. 

Quantos assinantes precisa então a Benfica TV de ter para chegar aos 8 milhões de euros de receita líquida? 

Pelas minhas contas, são apenas precisos mais 37131 assinantes por mês para o Benfica chegar a uma receita líquida de 8 milhões de euros por ano.

Ou seja, com 137131 assinantes mensais a Benfica TV passa a ser um negócio melhor do que a situação do ano de 2012/2013.

Não parece muito difícil de atingir esse número pois não? Se o clube conseguiu 100 mil assinantes em menos de um mês, conseguir mais 37 mil não será certamente muito complicado.

Porém, convém lembrar que essa era a situação na qual o Benfica achava que ganhava pouco por ano. E convém lembrar que o Benfica rejeitou uma oferta de 22,5 milhões de euros por ano.

Qual é o número de assinantes necessários para que o Benfica ganhe mais do que essa última oferta da Olivedesportos, de 22,5 milhões de euros por ano de receita líquida?

Se os parâmetros que usei nas contas se mantiverem, a partir de 250 mil assinantes, mais coisas menos coisa, a Benfica TV é um excelente negócio para o clube e ultrapassa claramente a última oferta da Olivedesportos.

Em resumo, segundo estas minhas estimativas, e volto a dizer que não tenho acesso directo a todos os números do negócio, e por isso esta é apenas uma estimativa pessoal com base em certos princípios gerais, o que se pode concluir é o seguinte:

 

- Abaixo dos 137 mil assinantes a Benfica TV é um mau negócio.

- Entre os 137 mil e os 250 mil assinantes, a Benfica TV representa uma melhoria da situação do clube face ao passado recente mas não ultrapassa a última oferta da Olivedesportos.

- Acima dos 250 mil assinantes, a Benfica TV é um excelente negócio para o clube, e será uma aposta vencedora de Luís Filipe Vieira.

  

A pergunta seguinte que se deve fazer é: e é possível a Benfica TV ultrapassar os 250 mil assinantes?

Na actual conjuntura económica, não será fácil. Com a economia ainda em recessão, há muitos benfiquistas que terão dificuldade em assinar a Benfica TV, mesmo vivendo longe de Lisboa e do estádio da Luz.

Acresce que, e esse é um dos principais riscos do negócio, por 9,9 euros os benfiquistas poderão ver 2 jogos no conforto das suas casas e podem ir menos ao estádio.

Os economistas chamam a isto o "efeito de substituição" e a Benfica TV torna-se assim numa concorrente do próprio estádio da Luz. Talvez por isso, o Benfica já baixou o preço médio dos lugares anuais cativos e provavelmente irá baixar também os preços gerais dos bilhetes, principalmente para os sócios, para evitar que eles fiquem em casa a ver na televisão.

Existem ainda dois riscos adicionais. O primeiro tem a ver com o "risco da performance" da equipa. Se Jorge Jesus não entrar bem na época, ou se o Benfica perder muitos pontos na primeira parte do campeonato, o número de assinantes tenderá a estagnar ou mesmo a diminuir ao longo da época. Por causa disso, deverá também a Benfica TV apostar noutros mercados, por exemplo os ingleses a viverem em Portugal, que assinarão por causa da Premier League.

Finalmente, há um risco evidente, que é o "risco de marca".

Os clubes de futebol têm consumidores muito fiéis dos seus produtos, mas raramente conseguem atrair consumidores de outros clubes. Só uma pequena parte dos assinantes da Benfica TV serão adeptos de outros clubes portugueses, e é quase certo que sportingusitas, portistas e outros, jamais assinarão o canal.

Assim, uma importante parte do mercado está excluída à partida, e o crescimento da base de assinantes tem um limite natural difícil de ultrapassar.


A minha conclusão final, que partilhei com os meus alunos de Economia do Desporto, é pois a de que a Benfica TV é um projecto original e muito corajoso, que vai alterar drásticamente o mercado de direitos televisivos em Portugal, mas tem riscos financeiros que não podem ser desprezados.

Chegar aos 150 mil assinantes parece-me perfeitamente possível, mas chegar aos 250 mil parece-me difícil para já, até porque a SportTV também reagiu e vai lançar um canal "low cost" para evitar a fuga de assinantes.

Veremos como correm os próximos meses, e prometo voltar ao tema quando a situação se tornar mais clara.

 

 

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publicado às 10:32


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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