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Os adeptos de futebol tem, cada vez mais, a estranha tendência de achar que despedir o treinador muda alguma coisa.

Não é verdade: a grande maioria das vezes não muda quase nada.

Sim, há excepções, mas são raras, eu diria mesmo raríssimas, sobretudo quando o despedimento é feito em fase tardia da época.

Despedir um treinador em Agosto ou mesmo em Outubro, ainda dá muito tempo ao seguinte para tentar melhorar as coisas.

Fazê-lo em Fevereiro é praticamente inútil, pois o novo treindador pouco tempo tem para trabalhar.

 

O despedimento do treinador é uma espécie de descarga psicológica colectiva, mas traz poucas melhorias reais.

Num estudo feito para a Premier League, a inglesa Sue Bridgewater mostrou que depois do despedimento há normalmente uma ligeira melhoria, mas ao fim de poucos jogos regressa-se ao ponto onde se estava antes, ou mesmo a um ponto mais baixo.

Quase sempre, o processo de despedimento implica a perda de oito ou nove pontos, e torna impossível qualquer recuperação.

E fica-se mais ou menos na mesma, como aconteceu recentemente com o Tottenham, que despediu Villas-Boas e três meses depois está na mesma posição em que estava.

 

O despedimento de um treinador pode criar uma ilusão, mas é normalmente uma falsa ilusão.

Na verdade, os recursos à mão do próximo treinador serão os mesmos, e os jogadores não melhoram de um dia para o outro, nem aprendem um novo sistema em poucos dias.

Em vez de despedir Paulo Fonseca agora, agarrando-se à fantasia de que ainda é possível ser campeão, o FC Porto devia talvez preparar a próxima época melhor do que preparou esta, e olhar para as evidentes lacunas e falta de qualidade do seu plantel, preparando um regresso em força.

Paulo Fonseca pode ter os seus defeitos e ter cometido erros, mas os adeptos do FC Porto têm de se lembrar que ele não tem Hulk, Falcão, James, Moutinho, Guarin, Alvaro Pereira, Lucho, e que os jogadores que tem são de muito menor qualidade.

Josué, Licá, Herrera, Carlos Eduardo, Defour, não têm pedalada para os voos a que ambiciona a equipa, e mesmo Quaresma é um salvador da Pátria tardio e problemático.

Sem jogadores talentosos, há pouco que se possa fazer. 

 

A carreira de Paulo Fonseca tem sido boa? Não, é evidente que está muito abaixo do que se esperava.

Venceu a Supertaça, e ainda entrou bem no campeonato, mas depois começou a cair muito.

A Liga dos Campeões foi muito fraca, com 3 derrotas e apenas 5 pontos.

Porém, continua na Liga Europa, nas Taças de Portugal e da Liga, e no campeonato, embora o atraso seja importante, quem pode garantir que até ao final da época Benfica e Sporting não fraquejam também?

Os dois últimos anos dão razão a Pinto da Costa, que continua a querer manter Paulo Fonseca.

Também Vítor Pereira foi muito contestado, sobretudo na primeira época, e também ele andou muitos pontos atrás do Benfica, mas conseguiu recuperar e no final foi campeão dois anos seguidos.

A história pode não se repetir uma terceira vez, mas faz todo o sentido o presidente do FC Porto não ceder à pressão da rua.

 

Até porque, se examinarmos o histórico do FC Porto no que toca a despedimentos de treinadores, veremos que nunca essa solução deu bons resultados. 

Em 2001/2002, Pinto da Costa despediu Octávio, e foi buscar Mourinho ao Leiria.

No entanto, o clube não foi campeão, e só conseguiu o terceiro lugar, atrás de Sporting e Boavista.

A mudança de treinador pouco alterou.

Também em 2004/2005 se verificou algo semelhante. Apesar de ter uma grande equipa, que fora campeã da Europa, a orfandade da saída de Mourinho causou grande perturbação, e o clude despediu Del Neri, e meses depois o seu substituto, Fernandez.

Couceiro, o terceiro treinador desse ano, também não conseguiu ser campeão, e ficou atrás do Benfica de Trapattoni.

Portanto, das últimas duas vezes que despediu treinadores, o FC Porto não ganhou nada com isso. 

É pouco provável que este ano a história fosse diferente.

 

 

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publicado às 10:09



Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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