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Ontem, em Alvalade, o Sporting venceu o FC Porto com um golo...em fora de jogo.

Depois de uma semana de gritos e fúrias nas redes sociais.

Depois da direção do clube ter emitido um comunicado a declarar que iria "processar" os árbitros, a Liga e a Federação Portuguesa de Futebol, por causa dos prejuízos causados ao clube.

Depois disso tudo, eis que o futebol mostra que é mesmo uma caixinha de surpresas e o Sporting vence à conta de um clamoroso erro de arbitragem.

Como dizia Pimenta Machado, em futebol o que hoje é verdade, amanhã é mentira.

Agora, já nenhum sportinguista tem legitimidade para falar, e as fúrias foram caladas oportunamente.

 

Fica assim mais uma vez demonstrado que estas fúrias contra as arbitragens são absolutamente inúteis.

Não vale a pena os clubes estarem com estes "movimentos", com estas "indignações", com estes "basta", e com estas ameaças de processos.

Isso não leva a lado nenhum, e na semana seguinte até podemos ter de meter a viola no saco, pois é a nossa vez de sermos beneficiados.

O que podem agora dizer os sportinguistas?

E o que achariam se o FC Porto viesse dizer que vai processar Pedro Proença, a Liga e FPF pelos prejuízos causados, uma vez que, à conta da derrota de ontem, quase ficou fora da Liga dos Campeões?

São muitos milhões perdidos, não é verdade?

 

A teoria de que o Sporting foi impedido de jogar para o título devido às arbitragens mostrou ontem a sua imbecilidade.

Ninguém no seu juízo perfeito nega que houve erros que prejudicaram o clube em alguns jogos, mas também os sportinguistas não podem negar que houve jogos em que foram beneficiados, como o de ontem.

Dizer que o Sporting foi "roubado" em 7 pontos é um exagero, pois ainda por cima parte de um vício de raciocíno disparatado.

Quando um golo é anulado, como foi em Setúbal ao Sporting, e no final o resultado é 2-2, porque é que todos partem do pressuposto que o resultado final devia ser 3-2 para o Sporting?

É evidente que, se o golo não tivesse sido anulado, a única coisa que podemos dizer é que ficava 1-0 nesse momento, mas quem sabe o que aconteceria até ao final?

A narrativa do jogo teria mudado, e é abusivo dizer que o resultado final teria sido 3-2, pois essa "realidade paralela" nunca aconteceu! 

 

Mas, em futebol toda a gente vive, não para ser intelectualmente honesto, mas para defender os seus clubes.

Toda a gente se enfurece, e toda a gente dá como certos os pontos que lhes roubaram, como se isso fosse garantido, mesmo sem erros de árbitros.

Os sportunguistas sentem que perderam pontos, mas a partir de ontem, já não podem fazer o papel de vítimas sem corar.

Agora, também ganharam pontos com erros crassos dos árbitros, e por isso o "Basta" morreu de morte súbita.

 

PS: E será que os adeptos do FC Porto ainda consideram Pedro Proença o melhor árbitro nacional? 

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publicado às 10:44

Ontem, Pinto da Costa atacou forte e feio o árbitro Artur Soares, pela sua prestação na Luz.

Hoje, o treinador Paulo Fonseca veio dizer que há uma "concertação de forças" contra o FC Porto, e a favor do Benfica e do Sporting.

Como de costume, o inimigo externo é o responsável por todos os males, seja ele o árbitro, seja uma nebulosa indefinida, formada não se sabe bem por quem.

Esta linha estratégica de ataque não é nada de novo, nem no FC Porto, nem nos outros clubes grandes, Benfica e Sporting, nem mesmo nos pequenos.

Em Portugal, é mesmo já um lugar comum, de uma banalidade confrangedora, esta postura de "vítima agressiva", de que se faz de vítima para logo atacar alguém.

Sempre que um clube tem maus resultados, dirigentes, treinadores e até jogadores, logo atiram as culpas para cima do árbitro, dos jornalistas, do sistema, dos comentadores, seja de quem for que esteja à mão.

O inferno, dizia Sartre, são sempre os outros, nunca nós. A culpa nunca é nossa, mas de terceiros que nos perseguem, maltratam e prejudicam.

 

Mas, será esta estratégia da "vítima agressiva" eficaz?

É evidente que esta é sempre uma estratégia vencedora junto dos próprios adeptos do clube.

Quando presidente e treinador começam a dizer o que disseram Pinto da Costa e Paulo Fonseca, noventa por cento dos adeptos adotam imediatamente esse discurso das vítimas das tenebroas maldades de terceiros.

Para juntar as hostes, e até para criar uma mentalidade de combate nos jogadores, esta estratégia e sempre bastante eficaz se for feita no timing certo.

E, neste caso, é este o momento de a levar à prática.

No passado, o Benfica não foi bem sucedido nesta estratégia porque a praticou tarde demais, só no final da época, onde ela já é inútil.

Mas, estamos a meio do campeonato, o FC Porto tem apenas 3 pontos de atraso do líder, e tudo é ainda possível.

Os ataques à arbritagem e ao sistema estão pois a ser feitos no momento certo pelo FC Porto.

 

Mas, será esta estratégia eficaz para fora, terá impacto no sistema, nos media, nas arbitragens?

É bem possível que sim.

Em Portugal, dá-se muita relevância às queixas de arbritragem, e às queixas de "concertação".

Quando um clube ataca o sistema ou os árbitros, os os jornalistas, a maioria dos outros árbitros, jornalistas ou comentadores têm tendência a alterar um pouco os seus comportamentos, para levar em conta as "queixas" dos queixosos.

A pressão que é feita pelos clubes - neste caso o FC Porto, mas noutros momentos os outros - tem eficácia, e os árbitros podem começar a ter menos coragem para tomar decisões difíceis, bem como os jornalistas podem ter menos vontade de fazer críticas.

A pressão cria uma "benevolência adicional" para com o queixoso, que pode traduzir-se em decisões ou ideias favoráveis a ele. 

 

Portanto, do ponto de vista portista, fez sentido que Pinto da Costa e Paulo Fonseca façam estas pressões.

Os seus adeptos ficam com eles, e os árbitros e os jornalistas ficam um pouco condicionados, o que só pode ter efeitos positivos para os queixosos.

É esse um dos segredos do futebol português: quem se queixa, normalmente tem benefícios a posteriori!

E é a pensar nesses benefícios, que podem aparecer durante a segunda volta, que o FC Porto segue esta estratégia da "vítima agressiva". 

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publicado às 15:35


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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