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Ontem, Pinto da Costa atacou forte e feio o árbitro Artur Soares, pela sua prestação na Luz.

Hoje, o treinador Paulo Fonseca veio dizer que há uma "concertação de forças" contra o FC Porto, e a favor do Benfica e do Sporting.

Como de costume, o inimigo externo é o responsável por todos os males, seja ele o árbitro, seja uma nebulosa indefinida, formada não se sabe bem por quem.

Esta linha estratégica de ataque não é nada de novo, nem no FC Porto, nem nos outros clubes grandes, Benfica e Sporting, nem mesmo nos pequenos.

Em Portugal, é mesmo já um lugar comum, de uma banalidade confrangedora, esta postura de "vítima agressiva", de que se faz de vítima para logo atacar alguém.

Sempre que um clube tem maus resultados, dirigentes, treinadores e até jogadores, logo atiram as culpas para cima do árbitro, dos jornalistas, do sistema, dos comentadores, seja de quem for que esteja à mão.

O inferno, dizia Sartre, são sempre os outros, nunca nós. A culpa nunca é nossa, mas de terceiros que nos perseguem, maltratam e prejudicam.

 

Mas, será esta estratégia da "vítima agressiva" eficaz?

É evidente que esta é sempre uma estratégia vencedora junto dos próprios adeptos do clube.

Quando presidente e treinador começam a dizer o que disseram Pinto da Costa e Paulo Fonseca, noventa por cento dos adeptos adotam imediatamente esse discurso das vítimas das tenebroas maldades de terceiros.

Para juntar as hostes, e até para criar uma mentalidade de combate nos jogadores, esta estratégia e sempre bastante eficaz se for feita no timing certo.

E, neste caso, é este o momento de a levar à prática.

No passado, o Benfica não foi bem sucedido nesta estratégia porque a praticou tarde demais, só no final da época, onde ela já é inútil.

Mas, estamos a meio do campeonato, o FC Porto tem apenas 3 pontos de atraso do líder, e tudo é ainda possível.

Os ataques à arbritagem e ao sistema estão pois a ser feitos no momento certo pelo FC Porto.

 

Mas, será esta estratégia eficaz para fora, terá impacto no sistema, nos media, nas arbitragens?

É bem possível que sim.

Em Portugal, dá-se muita relevância às queixas de arbritragem, e às queixas de "concertação".

Quando um clube ataca o sistema ou os árbitros, os os jornalistas, a maioria dos outros árbitros, jornalistas ou comentadores têm tendência a alterar um pouco os seus comportamentos, para levar em conta as "queixas" dos queixosos.

A pressão que é feita pelos clubes - neste caso o FC Porto, mas noutros momentos os outros - tem eficácia, e os árbitros podem começar a ter menos coragem para tomar decisões difíceis, bem como os jornalistas podem ter menos vontade de fazer críticas.

A pressão cria uma "benevolência adicional" para com o queixoso, que pode traduzir-se em decisões ou ideias favoráveis a ele. 

 

Portanto, do ponto de vista portista, fez sentido que Pinto da Costa e Paulo Fonseca façam estas pressões.

Os seus adeptos ficam com eles, e os árbitros e os jornalistas ficam um pouco condicionados, o que só pode ter efeitos positivos para os queixosos.

É esse um dos segredos do futebol português: quem se queixa, normalmente tem benefícios a posteriori!

E é a pensar nesses benefícios, que podem aparecer durante a segunda volta, que o FC Porto segue esta estratégia da "vítima agressiva". 

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publicado às 15:35

Há uns meses atrás, Jorge Jesus estava nas ruas da amargura.

Tinha perdido o campeonato, e ajoelhado no estádio do Dragão, impotente para travar o FC Porto.

Tinha chorado no Jamor, por ter perdido a Taça contra o Guimarães.

E, ainda por cima, tinha sido enxovalhado por Cardozo, mostrando que não tinha mão nos jogadores.

Em suma, era um "looser", um homem a quem ninguém dava futuro.

Porém, de repente, à medida que o Benfica tem vindo a melhorar e a ganhar jogos, Jesus tem sido transformado num perigosíssimo manipulador de árbitros, e num arruaceiro que falta ao respeito à polícia!

Quem tenha ouvido o treinador do FC Porto, Paulo Fonseca, que defendeu que os empates de FC Porto e Sporting se deveram a erros de arbitragem que só existiram devido à maliciosa "estratégia de Jorge Jesus", não terá dúvidas.

Para Paulo Fonseca, Jesus é Deus, pois é omnipotente, consegue mandar em todos (nos árbitros e até na polícia); e omnipresente, conseguindo ganhar em três campos ao mesmo tempo: Alvalade, Amoreira e Guimarães.

Mas, há mais. Mal se viram as imagens de uma confusão no relvado de Guimarães, lá vieram muitos acusar Jesus de ter "agredido" a polícia! Crime, berram eles! Castigo e já, berram eles! 

Acho que devíamos ter um pouco mais de lucidez, pois transformar Jesus num exterminador implacável que ainda por cima dá "tau-tau" na polícia, é um manifesto exagero.

A situação em Guimarães descontrolou-se, é verdade, e Jesus cometeu actos incorrectos, mas houve mais coisas que correram mal.

Primeiro, a segurança falhou, deixando entrar adeptos para dentro do campo.

Segundo, na entrada dos adeptos não havia qualquer intenção violenta ou maligna. Eram apenas jovens eufóricos com a vitória, que queriam pedir as camisolas dos seus ídolos, os jogadores do Benfica.

Por isso, e em terceiro lugar, parece-me que a avaliação que a polícia e a segurança fizeram da gravidade da situação foi exagerada.

Não me parece necessário usar tanta força contra dois ou três rapazes que só querem abraçar os seus jogadores.

Acho que houve algum excesso de zelo da polícia, talvez não fossem necessários cinco matulões para neutralizar um jovem, nem talvez fosse necessário colocar joelhos nas costas ou dobrar braços.

Em quarto lugar, acho que Jorge Jesus teve uma reação semelhante aquela que muitos de nós temos quando vemos excesso de força da polícia sobre alguém. Normalmente, isso incomoda as pessoas, que tentam pedir à polícia para não ser tão dura.

Jesus deu mais um passo, e fez aquilo que muitos fazem quando há uma briga: tentou separar os intervenientes.

Tal como os professores tentam separar os alunos à bulha no recreio, ou como os amigos tentam separar alguém numa rixa de bar, nessa tentativa há que fazer algum esforço físico, e isso passou-se também com Jorge Jesus.

Foi incorreto? Sim, foi, pois não se deve fazer isso quando uma das partes é um agente da autoridade.

Contudo, não me parece que tenha existido qualquer agressão, ou tentativa de agressão. O que houve foi excesso de empolgamento na tentativa de separação.

É claro que é compreensível a excitação acusatória em que ficaram os adversários do Benfica. Se o castigo a Jesus neutralizar o treinador do Benfica algum tempo, isso é um bónus excelente para os adversários do Benfica.

Mas, também não vale a pena exagerar. Uma incorreção que devia ter sido evitada, não é o mesmo que uma agressão.

Quanto à "manipulação de árbitros" de que fala o treinador do FC Porto, é mais do mesmo.

Em Portugal, quem perde pontos, arranja sempre teorias da conspiração para justificar os seus fracassos.

Porém, talvez devessemos dar mérito a quem o teve. O Estoril fez um belo jogo, causou imensos problemas ao FC Porto e mereceu empatar.

O futebol é bem mais simples do que as pessoas pensam.

Quem joga bem, normalmente é recompensado, e isso passou-se com o Estoril, e já agora, com o Rio Ave, que também jogou bastante bem em Alvalade.  

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publicado às 10:45


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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