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Saiu ontem o relatório da Deloitte que lista os maiores clubes do mundo em termos de receitas geradas e, como já se esperava, o clube português que mais receitas gera, o Benfica, caiu do 22º para o 26º lugar.

É importante dizer que, neste relatório da Deloitte, só são consideradas as receitas de bilheteira, as receitas televisivas e as receitas comerciais (sponsors, merchandising, corporate, etc) não sendo por isso incluídas as receitas com transferências de jogadores.

O Benfica, mas especialmente o FC Porto, são muito fortes nesta receita, mas isso não é contabilizado neste relatório, o que leva os clubes portugueses a terem dificuldade de competir com os clubes das ligas mais fortes (ingleses, alemães, espanhóis, italianos e franceses), bem como com os clubes turcos e mesmo brasileiros (o Corinthians ultrapassou este ano o Benfica).

 

No topo da lista, continuam Real Madrid e Barcelona, que geram receitas de 518,9 e 482,6 milhões de euros, suportadas sobretudo nos fantásticos direitos televisivos e nos patrocínios que geram.

Em terceiro lugar, vem o Bayern de Munich, que destronou o Manchester United da terceira posição. Depois de uma fantástica época desportiva, os alemães chegam aos 431,2 milhões de euros, enquanto o clube inglês se fica pelos 423,8 milhões.

Em quinto lugar, em grande ascensão, aparece o Paris Saint Germain, onde os milionários do Qatar têm investido muito e gerado fantásticas receitas, que chegam aos 398,8 milhões de euros.

De seguida, um clube inglês que está em alta, e dois clubes ingleses que perderam posições. O Manchester City, sobe para 6º lugar, com 316,2 milhões; o Chelsea cai para sétimo com 303,4 milhões; e o Arsenal tomba para oitavo, com 284,3 milhões de euros.

Em nono e décimo aparecem os dois primeiros clubes italianos: a Juventus, com 272,4 milhões, e o AC Milan, com 263,5 milhões.

 

Depois dos dez primeiros aparecem Dortmund, Liverpool, Shalke, Tottenham, e Inter, sendo que este último caiu 4 posições no ranking!

Depois, a surpresa: o 16º classificado é o Galatasaray, que ano passado estava em 29º! Os clubes turcos são os que mais sobem este ano, pois o Fenerbahçe também trepa até ao 18 lugar.

No meio dos turcos está o Hamburgo, que também sobe, e logo atrás estão a Roma e o Atlético de Madrid, que fecham o top 20.

Quem saiu dos 20 mais foram o Nápoles, o Newcastle, o Marselha e o Lyon, que caíram todos muito nas suas receitas.

 

E, para o ano, a Deloitte avisa que os ingleses vão subir muito, pois há novos contratos televisivos na Premier League.

É muito provável que, mesmo com a Benfica TV, o clube da Luz não consiga acompanhar a pedalada, e saia fora dos 30 primeiros. 

Portugal é um país muito mais pequeno que os outros, e ainda por cima com a crise económica que por cá vai, e com a penúria que os nossos clubes ganham em direitos televisivos, temos poucas hipóteses.

Exportar jogadores é uma fatalidade para os nossos clubes.

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publicado às 15:28

O Jornal de Negócios publicou recentemente vários artigos sobre a próxima temporada de futebol, noticiando com destaque, e chamada de capa à primeira página, que os orçamentos dos clubes de futebol da Liga Zon Sagres iriam ser reduzidos em cerca de 20 por cento.

A razão principal era a crise, e as reduções variavam de clube para clube, mas o total não chegava aos 200 milhões de euros, claramente abaixo do total do ano anterior, de 240 milhões.

Como era de esperar, o Sporting era apresentado como o clube que fez o corte mais drástico, de 44,4%, reduzindo o seu orçamento de 36 para 20 milhões.

O Braga reduzia de 15 para 13 milhões; o Benfica reduzia de 50 para 40 milhões; e o FC Porto reduzia de 100 para 90 milhões.

No entanto, e mesmo assim, o FC Porto era responsável por quase metade do orçamento total dos clubes, gastando 90 num total de 200 milhões.

Foi este número que me fez pensar e refletir se estes valores estariam correctos.

 

Em primeiro lugar, há a questão semântica.

O que é o orçamento? Normalmente, um orçamento é um documento onde existe uma previsão para as receitas e outra previsão para as despesas do próximo ano. Assim é, por exemplo, no Orçamento Geral do Estado (OGE).

A diferença entre as receitas e as despesas será um deficit, se for negativa, ou um superavit, se for positiva.

No caso das empresas, normalmente chamamos lucro, se a diferença for positiva, e prejuízo se for negativa.

É isso um orçamento, no entanto não é nesse sentido que me parece ter sido usada a expressão "orçamento" pelo Jornal de Negócios.

Uma vez que não existia qualquer referência às receitas dos clubes, eu deduzi que os "orçamentos" referidos pela publicação eram apenas as despesas dos clubes. 

É o "orçamento" na sua versão popular, como quando pedimos um "orçamento" a um canalizador para nos desentupir os canos. Nesse caso, o "orçamento" é apenas a nossa despesa.

 

Mas, sendo assim, será que fazem sentido os números apresentados pelo Jornal de Negócios para a despesa dos clubes na próxima temporada?

Talvez o exercício mais correcto seja comparar esses números com os números apresentados pelos 3 grandes nos seus últimos relatórios de contas. 

Na época de 2011/2012, o Benfica teve de custos operacionais 83,5 milhões de euros.

E, na época de 2012/2013, a última, apesar de ainda só ter saído o relatório de contas relativo ao terceiro trimestre (nove meses), os custos operacionais já iam nos 62,6 milhões de euros, o que aponta para um valor anual semelhante ao do ano anterior, de cerca de 83 milhões. 

Quanto ao Sporting, em 2011/2012, os custos operacionais da SAD foram de 66,3 milhões; e na época passada, também para apenas 9 meses, esse valor já ia em 48,3 milhões, o que também aponta para um valor no final do ano na casa dos 64 milhões de euros.

Finalmente, veja-se o FC Porto. Em 2011/2012, o valor dos custos operacionais foi de 91,4 milhões de euros. 

E, também para os mesmos nove meses, em 2012/2013, o valor apresentado era de 68,5 milhões, o que aponta para um valor final próximo 91 milhões.

Portanto, e em resumo, nas últimas duas temporadas, as despesas (ou custos) dos 3 grandes foram:

FC Porto - 91,4 e 91

Benfica - 83,5 e 83

Sporting - 66,3 e 64

 

É evidente que estes números são bastante diferentes daqueles que o Jornal de Negócios apresentou para os "orçamentos" dos 3 clubes.

Segundo o Jornal de Negócios, o FC Porto tinha um "orçamento" de 100 milhões para a época passada, mas na verdade a sua despesa não deverá ultrapassar muito os 91 milhões. 

Assim sendo, o "orçamento" para a época que agora começou não baixou 10 por cento, porque aquilo que o FCP prevê gastar (90 milhões) é mais ou menos o mesmo que gastou efectivamente nas duas últimas épocas.

Quanto ao Benfica, é aqui que há mais perplexidade nos números. Segundo o Jornal de Negócios, o Benfica tinha um orçamento de 50 milhões a época passada e agora desceu para 40 milhões.

Mas, na verdade, os custos do Benfica, nas duas últimas épocas, andaram nos 83 milhões.

Alguém acredita que o Benfica vai gastar este ano metade do que gastou o ano passado?

Julgo que o número que o Jornal de Negócios apresenta para o "orçamento" do Benfica está errado, não pode ser 40 milhões. Mais do que isso gasta o clube em despesa salarial...

Por fim, quanto ao Sporting, o número apresentado pelo Jornal de Negócios para o orçamento da época anterior, 36 milhões, também está muito longe da realidade, que deverá andar pelos 64 milhões.

Ou seja, se o Sporting diminuir a sua despesa para 20 milhões de euros, como diz o Negócios, irá cortar a sua despesa para um terço e não para metade!

Também aqui me parece haver um erro.

 

O Jornal de Negócios não revela a fonte dos seus números, limita-se a dizer que "recolheu dados", mas não diz onde.

Que eu saiba, não há qualquer documento oficial dos clubes onde seja apresentado um "orçamento". 

Assim sendo, os números devem ter sido obtidos de forma informal, e como acontece às vezes, não batem muito certo com a realidade.

É claro que, como avisa Ricardo Gonçalves, da Deloitte, "os orçamentos dos anos anteriores nunca foram cumpridos".

É verdade, mas exactamente por isso é que o Jornal de Negócios devia ter visto os números com mais atenção, pois não faz qualquer sentido apresentar o FC Porto com um orçamento de 90 milhões e o Benfica na casa dos 40 e o Sporting a 20.

Aliás, também o Record, no seu Guia 2013/2014, apresenta o mesmo erro.

Existe uma diferença entre o que gasta o FC Porto e o que gastam os outros, mas é muito menor do que a apresentada. 

 

 

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publicado às 17:16


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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