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Os grandes clubes de futebol não têm como objectivo os lucros, mas sim as vitórias.

É isso que os adeptos desejam, bem como os accionistas, ou presidentes.

O lucro não é o primeiro objectivo de um clube de futebol.

Porém, quando se ganha, muitas vezes consegue-se também dar lucro.

Está a ser o caso do Benfica, esta temporada.

Não só conseguiu vencer três títulos em Portugal, e ir à final da Liga Europa, como conseguiu dar lucros.

 

Quais foram as principais razões destes lucros? 

As receitas de bilheteira não foram maiores do que as do ano passado, até desceram um pouco.

Onde a receita cresceu muito foi nos direitos de transmissão televisiva.

A Benfica TV representou um aumento de mais de 14 milhões de euros em receitas televisivas, o que é excelente, sobretudo no ano de arranque.

E é quase certo que para o ano estas receitas vão manter-se, ou mesmo aumentar ainda, pois a taxa de mortalidade dos assinantes da Benfica TV tem sido baixa. Ou seja, quem assina fica, e isso está a permitir construir uma base sólida com poucas oscilações.

 

A segunda razão para o aumento de receitas foi a venda de jogadores (Matic, Rodrigo e André Gomes).

O presidente Luís Filipe Vieira tinha decidido em Agosto não vender, para tentar ir longe na Champions.

Porém, em Janeiro o Benfica seguiu para Liga Europa, e o clube decidiu vender, embora apenas Matic tinha saído da equipa.

O resultado das três vendas foi muito bom, e provavelmente o clube não tem necessidade de vender este Verão.

O que não quer dizer que não venda.

Garay, Gaitan, Cardozo, Enzo, todos têm muita procura, e em certos casos será impossível que fiquem no Benfica.

Como Jesus ontem reconheceu na SIC Notícias, Enzo Pérez será o mais difícil de substituir, e por isso é provável que só saia se alguém pagar os 30 milhões da cláusula de rescisão. 

Mas, se há coisa que o clube aprendeu nos últimos anos foi a substituir bem os que saiem por novos talentos, e todos acreditam que Jesus o poderá voltar a fazer, mesmo que saiam 4 ou 5 jogadores titulares.

 

Parece-me que com a Benfica TV, e com as vitórias da equipa, o Benfica chegou a um novo patamar de estabilidade e solidez.

Tem as finanças em ordem, dá lucros, e ganha títulos. 

Mesmo sendo sempre um clube vendedor, cujo modelo de negócio é "importar-ganhar-vender", os patamares de receitas que consegue no estádio, nos direitos televisivos e nos prémios da UEFA, permitem-lhe manter a qualidade do plantel às ordens do treinador.

Se conseguir substituir bem as saídas, e sobretudo se mantiver os níveis de despesa salarial com o plantel principal, o Benfica fica muito mais forte. 

Finalmente, julgo ser possível que se prolongue no Benfica um ciclo virtuoso de vitórias e lucros. 

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publicado às 11:13

O Benfica, nos últimos anos, vinha aperfeiçoando o seu modelo económico. 

Comprar bem, pagar bem aos jogadores, conseguir bons resultados sobretudo na Europa, e depois vender muito bem, para grandes clubes. 

Este modelo, que é o do FC Porto há mais de quinze anos, começou a funcionar na Luz com a chegada de Jorge Jesus.

Antes, as mais-valias com as vendas de jogadores eram fracas.

2006-2007 foi o único ano que o Benfica superou os 20 milhões de euros em mais-valias com a venda de jogadores, atingindo os 24,1.*

Nos outros anos, os resultados eram modestos, entre os 7 e os 10 milhões.

A chegada de Jesus mudou tudo.

Durante três anos o Benfica conseguiu mais-valias acima dos 25 milhões de euros por ano.

Em duas épocas, 2010-2011 e 2011-2012, conseguiu mesmo ultrapassar o FC Porto, obtendo 37,1 e 30,6 milhões de euros, quando os azuis se ficaram pelos 31,8 ou 29,1 milhões.

Porém, ao quarto ano de Jesus, o modelo "import-export" falhou, e o Benfica vai cair muito nessa receita, pois não conseguiu nenhuma grande venda até ao fecho dos mercados.

Embora as vendas de Witsel e Javi Garcia ainda contem no ano que terminou, época 2012-2013, a verdade é que o Verão foi decepcionante.

Apenas há a registar a saída de Melgarejo, por 5 milhões, o resto são trocos e empréstimos.

O objetivo que a imprensa anunciava, de 75 milhões em vendas, não passou de uma miragem.

Cardozo, que todos acreditavam ir sair, ficou.

Garay, que muitos colocavam já a ver casas em Manchester a caminho do United, também ficou.

Gaitan, como eu sempre previ, não teve ofertas decentes para sair. 

Restavam Matic e Salvio, mas o primeiro sempre disse que não se queria ir embora; e o segundo, que talvez fosse sair, lesionou-se à última hora, e vai ficar parado seis meses com uma lesão grave. 

Os cinco vão ficar na Luz, e portanto não há vendas relevantes. 

No entanto, a primeira parte do modelo continuou a funcionar.

O Benfica comprou muito: os quatro sérvios, mais alguns defesas e avançados.

Além disso, continua a pagar bem aos seus jogadores, apesar de ter aliviado a folha salarial com algumas saídas, sobretudo a de Aimar.

E, também jogou bem, na Europa e em Portugal, classificando-se para a Champions e depois estando presente na final da Liga Europa.

Do modelo económico, só falhou a parte final.

O Benfica compra muito; paga muito; joga muito; mas, no fim não vendeu muito.

Porquê?

O mercado de transferências tem razões que a razão desconhece; mas o relevante é que, não funcionando o modelo "import-export", só se aguenta os custos altos com mais dívida.

É esse o resultado do falhanço deste Verão, que chegou a ser ligeiramente humilhante, face aos números do FC Porto, e até do Sporting, que vendeu Bruma e Ilori.  

Sem vendas, sem "exportações", só há um caminho, mais e mais dívida.

E isso é preocupante. 

 

* Todos os números são retirados dos relatórios de contas dos clubes.

 

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publicado às 12:33

Na semana passada, a imprensa desportiva referia que Luís Filipe Vieira teria estabelecido uma meta: 75 milhões de vendas de jogadores até ao fecho do mercado, em inícios de Setembro. 

Será isso possível, com os jogadores que o Benfica tem? E faz sentido colocar um objectivo assim tão definido, um número mágico?

A mim parece-me um erro colocar um objectivo tão minucioso e tão alto. 

É que essa entidade tão vasta chamada "mercado" não é controlável por ninguém, e os seus caprichos são imprevisíveis e flutuantes.

Ninguém sabe bem o que o "mercado" pode querer até inícios de Setembro, e colocar a fasquia nos 75 milhões pode ser um pau de dois bicos.

Se o Benfica não chegar a esse valor em vendas, lá virão os críticos de Vieira dizer que ele foi demasiado ambicioso e guloso, e que agora terá de lamber as feridas, ficando mais uma vez atrás do rival FC Porto, que temos de recordar já realizou esse valor com as vendas de Moutinho e James Rodriguez.

Mas, e se acontecer?

Os que defendem essa possibilidade recordam o Agosto de 2012. Até dia 20 e tal de Agosto, o clube não tinha vendido ninguém com relevância.

Depois, em pouco mais de uma semana, vendeu Javi Garcia para o City, por 20 e tal milhões, e Witsel para o Zenit, por 40 milhões.

Se o ano passado se conseguiram 60 e tal milhões em menos de quinze dias, porque não este ano?

E quem poderão ser os jogadores que, somando os seus valores de vendas, cheguem a 75 milhões?

A imprensa desportiva falava em cinco jogadores: Matic, Salvio, Garay, Gaitan e Cardozo.

Analisemos primeiro aqueles cuja saída não seria muito danosa para a qualidade da equipa.

Garay, por exemplo, pode valer 20 milhões, mas há notícias de que o Manchester United queria dar apenas 15 a pronto, pagando o resto ao longo de vários anos.

Aqui, o Benfica pode realizar entre 15 a 20 milhões, mas metade será sempre para o Real Madrid, e portanto não deve ir às contas da Luz.

Quanto a Cardozo, já se viu que os 15 milhões são difíceis, mas talvez 12 sejam possíveis.

Resta Gaitan, que nos sites que avaliam os jogadores não passa dos 15 milhões. Vendê-lo por 20 seria pois um excelente negócio, embora se trate de um jogador que não faz claramente a diferença, nem marca muitos golos.

Em resumo, e sem grandes danos para a qualidade da equipa, o Benfica pode realizar, numa estimativa muito benéfica, no máximo 45 milhões com estes jogadores (10 por metade do passe de Garay, 20 por Gaitan e 15 por Cardozo).

Ou, numa estimativa mais sensata, 35 milhões de euros (7,5 por Garay, 15 por Gaitan e 12,5 por Cardozo).

Agora, se vender ou Matic ou Salvio, os valores poderão subir consideravelmente.

Salvio poderá valer entre 25 e 30 milhões, é um excelente extremo, jovem, que marca muitos golos por ano. 

Matic ainda poderá ter um potencial maior. É um grande médio, fez uma época fantástica, e também marca golos.

Embora nos sites de avaliação de jogadores o seu valor não chegue aos 25 milhões, é possível que bem negociado vá até aos 35 ou 40 milhões, sobretudo se os compradores forem clubes milionários a contruir ainda equipas, como o PSG ou o Mónaco.

É pois perfeitamente admissível atingir um valor de 75 milhões, ou até mais, se todos os cinco jogadores forem vendidos.

Mas, e esse é o ponto, alguém acredita que o Benfica vai vender 5 jogadores destes na mesma época?

E como ficaria Jorge Jesus, que perderia de uma assentada 5 titulares da equipa?

Parece-me que, mais do que definir um objectivo mágico para o total de milhões que se obtém em vendas, Vieira se deve preocupar em vender bem quem já tem substituto à altura. 

São os casos de Garay (há Lisandro), Cardozo (há Lima, Rodrigo e talvez Funes Mori), e Gaitan (há Markovic, Ola John, Suleimani). 

Depois, é escolher um dos outros dois: ou Salvio, e perde-se força no ataque, ou Matic, e perde-se no meio-campo.

Vender os cinco ao mesmo tempo é que me parece demais. 

É certo que, nos escombros da venda de Javi e Witsel, Jesus construiu uma equipa que foi muito longe e chegou a ser brilhante na época passada.

Mas, fazê-lo de novo sem Matic, Salvio ou Cardozo, é muito difícil. Seria mesmo um milagre...

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publicado às 15:20


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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