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Ontem, logo depois da derrota na Luz, liam-se muitos comentários de portistas a pedir a cabeça de Paulo Fonseca.

A equipa não jogou bem, foi pouco ambiciosa, e a derrota foi justa, mas será que faz sentido despedir o treinador?

 

Em primeiro lugar, vamos examinar os resultados de Paulo Fonseca.

Venceu a Supertaça, contra o Vitória de Guimarães, único título que podia conquistar até agora.

Na Champions, teve fracos desempenhos: três derrotas, duas das quais em casa, dois empates e apenas uma vitória.

Foi uma das piores Champions de sempre do FC Porto, com apenas 5 pontos obtidos. A única consolação foi a ida à Liga Europa, que o terceiro lugar permite.

Na Taça de Portugal, o FC Porto venceu os 3 jogos que disputou e está nos quartos de final, e na Taça da Liga empatou em Alvalade, o que se pode considerar um bom resultado, pois é um campo onde normalmente o FC Porto tem dificuldades.

Mesmo o ano passado, a pior época de sempre do Sporting, o FC Porto não conseguiu vencer em Alvalade para o campeonato.

Por fim, no campeonato, o FC Porto está em terceiro, a 3 pontos do Benfica, e com menos 6 pontos que no ano anterior.

São resultados abaixo das expectativas, mas nada está perdido, e o clube está na luta pelo título, com a vantagem psicológica, embora distante, de receber os encarnados na última jornada.

 

Ao todo, Paulo Fonseca disputou 26 jogos, tem 15 vitórias, 6 empates e 5 derrotas.

Se dermos meio ponto a cada empate e dois a cada vitória, temos que Paulo Fonseca tem uma percentagem de vitórias de 69,2%.

É bem abaixo do que conseguiram os seus antecessores, Vítor Pereira e André Villas-Boas, mas o clube continua em quatro competições, e por isso não se pode dizer que é irremediável. 

 

Será que o problema é o treinador, ou são os recursos que ele tem ao seu dispôr?

Como todos sabemos, são os jogadores que jogam, e a verdade é que este ano o FC Porto não tem tão bons jogadores.

Compare-se por exemplo com Villas-Boas, que tinha Falcão, Hulk, James, Moutinho e Álvaro Pereira, e rapidamente temos de aceitar que este ano a qualidade é bem menor no Dragão.

A substituição das peças não foi executada com mestria, e Josué, Licá, Carlos Eduardo, Herrera ou Ghilas, não estão ao mesmo nível dos jogadores que saíram nos últimos dois anos.

Sem ovos não se fazem omeletes, e por melhor que Paulo Fonseca fosse, a verdade é que os recursos que tem à sua disposição não são brilhantes.

Por mais apelos que se façam à vontade, à raça, à força mental, se não houver talento, nada se consegue.

Ao FC Porto falta este ano talento, e não me parece que o regresso de Quaresma chegue para suprir essa falha grave.

E sem jogadores talentosos, não há muito que Paulo Fonseca ou outro, possam fazer. 

 

Mas, mesmo assim, não seria melhor ir buscar um treinador com mais garra, mais ambicioso?

Para responder a essa pergunta, vamos examinar o histórico do FC Porto em despedimentos de treinadores.

Em 2001/2002, Pinto da Costa despediu Octávio, e foi buscar Mourinho ao Leiria.

No entanto, o clube não foi campeão, e só conseguiu o terceiro lugar, atrás de Sporting e Boavista.

A mudança de treinador pouco alterou.

Também em 2004/2005 se verificou algo semelhante. Apesar de ter uma grande equipa, que fora campeã da Europa, a orfandade da saída de Mourinho causou grande perturbação, e o clude despediu Del Neri, e meses depois o seu substituto, Fernandez.

Couceiro, o terceiro treinador desse ano, também não conseguiu ser campeão, e ficou atrás do Benfica de Trapattoni.

Portanto, das últimas duas vezes que despediu treinadores, o FC Porto não ganhou nada com isso. 

 

É aliás essa a conclusão dos estudos universitários que têm sido feito nos últimos anos sobre as "chicotadas psicológicas".

Sue BridgeWater, uma das maiores especialistas no assunto, conclui que depois do despedimento há uma pequena lua de mel, e os resultados melhoram, mas ao fim de cinco ou seis jogos regressam os problemas, e a equipa fica normalmente num ponto semelhante ao que estava antes.

A conclusão é óbvia: é a qualidade dos jogadores que determina a qualidade da equipa, e quando os recursos não são bons, mudar de treinador raramente resolve alguma coisa.

Despedir Paulo Fonseca dificilmente muda o rumo dos acontecimentos. Melhor seria se o FC Porto contratasse mais dois ou três jogadres de qualidade em Janeiro.

Aí sim, os resultados poderiam melhorar. 

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publicado às 10:16

Em Junho, muitos foram os que se espantaram com o "timing" da venda dos jogadores James e João Moutinho ao Mónaco.

Se o mercado só fechava a 31 de Agosto, porque é o que o FC Porto realizava a venda ainda em Junho?

A razão é simples de explicar: as contas dos clubes acompanham a época desportiva, e são apresentadas num ano que se inicia a 1 de Julho e termina a 31 de Junho.

Ora, na época 2011-2012, o FC Porto tinha apresentado um prejuízo de 35,7 milhões de euros, o primeiro resultado negativo depois de cinco anos consecutivos de lucros.

Sendo assim, o FC Porto tinha de vender jogadores para voltar aos lucros.

E assim fez: ainda em Agosto de 2012, vendeu Hulk e Álvaro Pereira.

No entanto, apenas essas duas vendas não chegavam.

Hulk foi bem vendido, mas tinha sido comprado caro, e portanto a mais valia do clube não era fabulosa. E Álvaro Pereira também não foi uma venda de grande singnificado.

Se o FC Porto tivesse apenas vendido esses dois jogadores até 31 de Junho de 2013, provavelmente teria de apresentar prejuízos pelo segundo ano consecutivo.

Para o evitar, o FC Porto antecipou a venda de James e de João Moutinho ao Mónaco, fazendo-a entrar antes de 31 de Junho de 2013, para que pudesse apresentar lucros no exercício.

A venda, de um valor global de 70 milhões de euros, era bastante importante, mas normalmente teria sido feita mais para a frente no Verão, talvez em Julho ou mesmo em Agosto.

Mas, e essa é a prova de que o FC Porto é muito bem gerido, o clube conseguiu convencer o comprador a realizar o negócio ainda em Junho, e regressou assim aos lucros, apresentando um total de 20,3 milhões..

Na verdade, não havia outra alternativa.

As receitas de bilheteira tinham descido, devido à crise económica; o crescimento dos prémios da UEFA face ao ano anterior era de apenas 6 milhões de euros; e as receitas televisivas só tinham crescido pouco, menos de 1 milhão de euros.

Só com a receita extraordinária da venda desses jogadores, ainda em Junho de 2013, foi possível o clube apresentar lucros.

É mais um exemplo de como a gestão é eficaz e bem feita no FC Porto, e de que o modelo de negócio, que funciona há muitos anos, quase sempre produz bons resultados.

O FC Porto usa o modelo "import-win-export". Importa jogadores bons, vence muito, e depois exporta muito bem.

É com este modelo, um case study europeu de sucesso, que o clube sustenta financeiramente as suas contas, e se mantém sempre competitivo.

Há apenas um pequeno senão...

Como já vendeu no exercício anterior, para o próximo ano o FC Porto ou vende em Janeiro de 2014, ou terá de voltar a vender até final de Junho de 2014, caso contrário arrisca-se a novo ano com prejuízos. 

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publicado às 15:45


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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