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Portugal podia ter 3 treinadores na lista dos 30 mais bem pagos do mundo, mas com o despedimento de André Villas-Boas, agora só tem dois!

Mourinho é o 2ª mais bem pago do mundo, tendo este ano caído do primeiro lugar, destronado por Guardiola.

Já Jorge Jesus aparece em 11º lugar, tendo subido 3 lugares, pois o ano passado era o 14º mais bem pago.

Mourinho ganha 10 milhões de euros, Guardiola ganha 17, e Jesus está nos 4 milhões de euros brutos por ano!

 

A lista dos 11 melhores, compilada pela empresa brasileira Pluri Consultoria, está no final deste texto, mas mais interessante ainda é ver se o dinheiro investido pelos clubes está a ser bem empregue.

Para tal, vou aqui apresentar um indicador muito usado nas escolas de economia e gestão para analisar o desporto, que é a "percentagem de vitórias".

A percentagem de vitórias calcula-se dando 2 pontos a cada vitória e 1 a cada empate, e depois dividindo esse total pelo máximo que se podia obter nos jogos que já se efectuaram.

Assim, se um treinador ganhou 3 jogos, empatou 2 e perdeu 1, terá 6 pontos pelas vitórias (3x2), um ponto pelo empate (1x1), ou seja um total de 7 pontos em 12 possíveis (2x6 jogos) o que dá uma percentagem de vitórias de de 7/12, ou 58,3%.  

 

Qual é a percentagem de vitórias de cada um dos 11 treinadores mais bem pagos do mundo?

Vamos considerar apenas os jogos para os respectivos campeonatos e os jogos das competições europeias.

Comecemos por Guardiola, o primeiro do ranking, que ganha 17 milhões de euros brutos por ano.

Pepe realizou um total de 22 jogos, com 19 vitórias, 2 empates e 1 derrota.

Tem uma percentagem de vitórias de 90,9%, ou em números ((19x2) + (2x1))/(22x2).

Se fizermos contas semelhantes para José Mourinho, vemos que ele tem na Premier League 10 vitórias, 3 empates e 3 derrotas, e na Champions tem 4 vitórias e 2 derrotas.

Ou seja, fez os mesmos 22 jogos que Guardiola, mas tem 14 vitórias, 3 empates e 5 derrotas.

A percentagem de vitórias de Mourinho é pois de 70,4%, ou na fórmula ((14x2) + (3x1))/(22x2), o que é bem abaixo de Guardiola.

 

Agora, veja-se o quadro completo para os 11 treinadores mais bem pagos do mundo e as respectivas percentagens de vitórias:

 

Guardiola, Barcelona             17 m€       90,9%      19V, 2E, 1D

Mourinho, Chelsea                10 m€       70,4%      14V, 3E, 5D

M. Lippi, Guangzhou*             10 m€      88,3%      24V, 5E, 1D

Wenger, Arsenal                   8,2 m€      72,7%      15V, 2E, 5D

Capello, Rússia*                     7,8 m€      75%         7V, 1E, 2D

Ancelotti, Real Madrid           7,5 m€       84%        17V, 3E, 2D 

Moyes, Man. United              5,9 m€       63,6%     11V, 6E, 5D

Martino, Barcelona               5,4 m€       86,3%      18V, 2E, 2D

Klopp, B. Dortmund              4,3 m€      68,1%      14V, 2E, 6D

Pellegrini, Man. City              4,1 m€      72,7%      15V, 2E, 5D

Jesus, Benfica                       4 m€         73,6%     12V, 4E, 3D

 

 

Quais as conclusões que podemos retirar deste quadro?

A primeira é óbvia: Guardiola é o mais bem pago, e merece o que ganha, pois tem a mais alta percentagens de vitórias de todos, 90,9%!

 

A segunda também é óbvia: Mourinho está a ter uma época abaixo do que se esperava, e não está a merecer o que ganha!

Ganha 10 milhões, mas só tem uma percentagem de vitórias de 70,4%.

É o terceiro pior da lista, só ficando à frente de Moyes, que está nos 63,6%, e de Klopp, que está nos 68,1%, mas a verdade é que Moyes ganha quase metade de Mourinho, e Klopp menos de metade!

 

A terceira conclusão é: Lippi também merece o que ganha, foi campeão na China, e com uma percentagem de vitórias de 88,3%!

 

A quarta conclusão é: Wenger e Capello também merecem o que ganham, têm boas percentagens de vitórias!

 

A quinta conclusão é: Pellegrini devia ganhar mais no City!

Ganha apenas 4,1 milhões e consegue melhores resultados que Moyes e Mourinho, que ganham mais do que ele!

 

A sexta conclusão é: Martino também devia ganhar mais!

Tem a terceira melhor percentagem de vitórias da lista, com 86,3%, mas ganha menos que Ancelotti, que está nos 84%!

 

A sétima conclusão é: Jorge Jesus não está nada mal.

Apesar de ser apenas o 11º mais bem pago, tem cinco treinadores com percentagens de vitórias mais baixas do que ele: Moyes, Klopp, Mourinho, Wenger e Pellegrini.

Ora, se admitirmos que Lippi e Capello não devem ser metidos no mesmo saco, pois o campeonato da China e a seleção da Rússia não são do mesmo nível que os campeonatos europeus, chegamos à conclusão final:

Jorge Jesus é, dos 11 mais bem pagos do mundo, o quarto mais eficiente na Europa, apenas ultrapassado por Guardiola, Martino e Ancelotti!

 

É, sem dúvida, um bom resultado. No entanto, se o compararmos por exemplo com Diego Simeone, já perde algum brilho.

Simeone é o 26º treinador mais bem pago, ganha apenas 2,5 milhões de euros no Atlético de Madrid.

Porém, em 22 jogos, ganhou 19, empatou 2 e apenas perdeu 1 jogo! 

Simeone tem uma percentagem de vitórias de 90,9%, igual à de Guardiola, o que é espantoso, atendendo a que ganha quase 7 vezes menos!

Isso é que é dinheiro bem gasto!

 

 

* No caso de Marcelo Lippi, considerei os 30 jogos do campeonato chinês em 2013. No caso de Fábio Capello considerei os 10 jogos de qualificação para o Mundial 2014.

 

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publicado às 11:00

O Jornal de Negócios publicou recentemente vários artigos sobre a próxima temporada de futebol, noticiando com destaque, e chamada de capa à primeira página, que os orçamentos dos clubes de futebol da Liga Zon Sagres iriam ser reduzidos em cerca de 20 por cento.

A razão principal era a crise, e as reduções variavam de clube para clube, mas o total não chegava aos 200 milhões de euros, claramente abaixo do total do ano anterior, de 240 milhões.

Como era de esperar, o Sporting era apresentado como o clube que fez o corte mais drástico, de 44,4%, reduzindo o seu orçamento de 36 para 20 milhões.

O Braga reduzia de 15 para 13 milhões; o Benfica reduzia de 50 para 40 milhões; e o FC Porto reduzia de 100 para 90 milhões.

No entanto, e mesmo assim, o FC Porto era responsável por quase metade do orçamento total dos clubes, gastando 90 num total de 200 milhões.

Foi este número que me fez pensar e refletir se estes valores estariam correctos.

 

Em primeiro lugar, há a questão semântica.

O que é o orçamento? Normalmente, um orçamento é um documento onde existe uma previsão para as receitas e outra previsão para as despesas do próximo ano. Assim é, por exemplo, no Orçamento Geral do Estado (OGE).

A diferença entre as receitas e as despesas será um deficit, se for negativa, ou um superavit, se for positiva.

No caso das empresas, normalmente chamamos lucro, se a diferença for positiva, e prejuízo se for negativa.

É isso um orçamento, no entanto não é nesse sentido que me parece ter sido usada a expressão "orçamento" pelo Jornal de Negócios.

Uma vez que não existia qualquer referência às receitas dos clubes, eu deduzi que os "orçamentos" referidos pela publicação eram apenas as despesas dos clubes. 

É o "orçamento" na sua versão popular, como quando pedimos um "orçamento" a um canalizador para nos desentupir os canos. Nesse caso, o "orçamento" é apenas a nossa despesa.

 

Mas, sendo assim, será que fazem sentido os números apresentados pelo Jornal de Negócios para a despesa dos clubes na próxima temporada?

Talvez o exercício mais correcto seja comparar esses números com os números apresentados pelos 3 grandes nos seus últimos relatórios de contas. 

Na época de 2011/2012, o Benfica teve de custos operacionais 83,5 milhões de euros.

E, na época de 2012/2013, a última, apesar de ainda só ter saído o relatório de contas relativo ao terceiro trimestre (nove meses), os custos operacionais já iam nos 62,6 milhões de euros, o que aponta para um valor anual semelhante ao do ano anterior, de cerca de 83 milhões. 

Quanto ao Sporting, em 2011/2012, os custos operacionais da SAD foram de 66,3 milhões; e na época passada, também para apenas 9 meses, esse valor já ia em 48,3 milhões, o que também aponta para um valor no final do ano na casa dos 64 milhões de euros.

Finalmente, veja-se o FC Porto. Em 2011/2012, o valor dos custos operacionais foi de 91,4 milhões de euros. 

E, também para os mesmos nove meses, em 2012/2013, o valor apresentado era de 68,5 milhões, o que aponta para um valor final próximo 91 milhões.

Portanto, e em resumo, nas últimas duas temporadas, as despesas (ou custos) dos 3 grandes foram:

FC Porto - 91,4 e 91

Benfica - 83,5 e 83

Sporting - 66,3 e 64

 

É evidente que estes números são bastante diferentes daqueles que o Jornal de Negócios apresentou para os "orçamentos" dos 3 clubes.

Segundo o Jornal de Negócios, o FC Porto tinha um "orçamento" de 100 milhões para a época passada, mas na verdade a sua despesa não deverá ultrapassar muito os 91 milhões. 

Assim sendo, o "orçamento" para a época que agora começou não baixou 10 por cento, porque aquilo que o FCP prevê gastar (90 milhões) é mais ou menos o mesmo que gastou efectivamente nas duas últimas épocas.

Quanto ao Benfica, é aqui que há mais perplexidade nos números. Segundo o Jornal de Negócios, o Benfica tinha um orçamento de 50 milhões a época passada e agora desceu para 40 milhões.

Mas, na verdade, os custos do Benfica, nas duas últimas épocas, andaram nos 83 milhões.

Alguém acredita que o Benfica vai gastar este ano metade do que gastou o ano passado?

Julgo que o número que o Jornal de Negócios apresenta para o "orçamento" do Benfica está errado, não pode ser 40 milhões. Mais do que isso gasta o clube em despesa salarial...

Por fim, quanto ao Sporting, o número apresentado pelo Jornal de Negócios para o orçamento da época anterior, 36 milhões, também está muito longe da realidade, que deverá andar pelos 64 milhões.

Ou seja, se o Sporting diminuir a sua despesa para 20 milhões de euros, como diz o Negócios, irá cortar a sua despesa para um terço e não para metade!

Também aqui me parece haver um erro.

 

O Jornal de Negócios não revela a fonte dos seus números, limita-se a dizer que "recolheu dados", mas não diz onde.

Que eu saiba, não há qualquer documento oficial dos clubes onde seja apresentado um "orçamento". 

Assim sendo, os números devem ter sido obtidos de forma informal, e como acontece às vezes, não batem muito certo com a realidade.

É claro que, como avisa Ricardo Gonçalves, da Deloitte, "os orçamentos dos anos anteriores nunca foram cumpridos".

É verdade, mas exactamente por isso é que o Jornal de Negócios devia ter visto os números com mais atenção, pois não faz qualquer sentido apresentar o FC Porto com um orçamento de 90 milhões e o Benfica na casa dos 40 e o Sporting a 20.

Aliás, também o Record, no seu Guia 2013/2014, apresenta o mesmo erro.

Existe uma diferença entre o que gasta o FC Porto e o que gastam os outros, mas é muito menor do que a apresentada. 

 

 

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publicado às 17:16


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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