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O Benfica, nos últimos anos, vinha aperfeiçoando o seu modelo económico. 

Comprar bem, pagar bem aos jogadores, conseguir bons resultados sobretudo na Europa, e depois vender muito bem, para grandes clubes. 

Este modelo, que é o do FC Porto há mais de quinze anos, começou a funcionar na Luz com a chegada de Jorge Jesus.

Antes, as mais-valias com as vendas de jogadores eram fracas.

2006-2007 foi o único ano que o Benfica superou os 20 milhões de euros em mais-valias com a venda de jogadores, atingindo os 24,1.*

Nos outros anos, os resultados eram modestos, entre os 7 e os 10 milhões.

A chegada de Jesus mudou tudo.

Durante três anos o Benfica conseguiu mais-valias acima dos 25 milhões de euros por ano.

Em duas épocas, 2010-2011 e 2011-2012, conseguiu mesmo ultrapassar o FC Porto, obtendo 37,1 e 30,6 milhões de euros, quando os azuis se ficaram pelos 31,8 ou 29,1 milhões.

Porém, ao quarto ano de Jesus, o modelo "import-export" falhou, e o Benfica vai cair muito nessa receita, pois não conseguiu nenhuma grande venda até ao fecho dos mercados.

Embora as vendas de Witsel e Javi Garcia ainda contem no ano que terminou, época 2012-2013, a verdade é que o Verão foi decepcionante.

Apenas há a registar a saída de Melgarejo, por 5 milhões, o resto são trocos e empréstimos.

O objetivo que a imprensa anunciava, de 75 milhões em vendas, não passou de uma miragem.

Cardozo, que todos acreditavam ir sair, ficou.

Garay, que muitos colocavam já a ver casas em Manchester a caminho do United, também ficou.

Gaitan, como eu sempre previ, não teve ofertas decentes para sair. 

Restavam Matic e Salvio, mas o primeiro sempre disse que não se queria ir embora; e o segundo, que talvez fosse sair, lesionou-se à última hora, e vai ficar parado seis meses com uma lesão grave. 

Os cinco vão ficar na Luz, e portanto não há vendas relevantes. 

No entanto, a primeira parte do modelo continuou a funcionar.

O Benfica comprou muito: os quatro sérvios, mais alguns defesas e avançados.

Além disso, continua a pagar bem aos seus jogadores, apesar de ter aliviado a folha salarial com algumas saídas, sobretudo a de Aimar.

E, também jogou bem, na Europa e em Portugal, classificando-se para a Champions e depois estando presente na final da Liga Europa.

Do modelo económico, só falhou a parte final.

O Benfica compra muito; paga muito; joga muito; mas, no fim não vendeu muito.

Porquê?

O mercado de transferências tem razões que a razão desconhece; mas o relevante é que, não funcionando o modelo "import-export", só se aguenta os custos altos com mais dívida.

É esse o resultado do falhanço deste Verão, que chegou a ser ligeiramente humilhante, face aos números do FC Porto, e até do Sporting, que vendeu Bruma e Ilori.  

Sem vendas, sem "exportações", só há um caminho, mais e mais dívida.

E isso é preocupante. 

 

* Todos os números são retirados dos relatórios de contas dos clubes.

 

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publicado às 12:33

Na semana passada, a imprensa desportiva referia que Luís Filipe Vieira teria estabelecido uma meta: 75 milhões de vendas de jogadores até ao fecho do mercado, em inícios de Setembro. 

Será isso possível, com os jogadores que o Benfica tem? E faz sentido colocar um objectivo assim tão definido, um número mágico?

A mim parece-me um erro colocar um objectivo tão minucioso e tão alto. 

É que essa entidade tão vasta chamada "mercado" não é controlável por ninguém, e os seus caprichos são imprevisíveis e flutuantes.

Ninguém sabe bem o que o "mercado" pode querer até inícios de Setembro, e colocar a fasquia nos 75 milhões pode ser um pau de dois bicos.

Se o Benfica não chegar a esse valor em vendas, lá virão os críticos de Vieira dizer que ele foi demasiado ambicioso e guloso, e que agora terá de lamber as feridas, ficando mais uma vez atrás do rival FC Porto, que temos de recordar já realizou esse valor com as vendas de Moutinho e James Rodriguez.

Mas, e se acontecer?

Os que defendem essa possibilidade recordam o Agosto de 2012. Até dia 20 e tal de Agosto, o clube não tinha vendido ninguém com relevância.

Depois, em pouco mais de uma semana, vendeu Javi Garcia para o City, por 20 e tal milhões, e Witsel para o Zenit, por 40 milhões.

Se o ano passado se conseguiram 60 e tal milhões em menos de quinze dias, porque não este ano?

E quem poderão ser os jogadores que, somando os seus valores de vendas, cheguem a 75 milhões?

A imprensa desportiva falava em cinco jogadores: Matic, Salvio, Garay, Gaitan e Cardozo.

Analisemos primeiro aqueles cuja saída não seria muito danosa para a qualidade da equipa.

Garay, por exemplo, pode valer 20 milhões, mas há notícias de que o Manchester United queria dar apenas 15 a pronto, pagando o resto ao longo de vários anos.

Aqui, o Benfica pode realizar entre 15 a 20 milhões, mas metade será sempre para o Real Madrid, e portanto não deve ir às contas da Luz.

Quanto a Cardozo, já se viu que os 15 milhões são difíceis, mas talvez 12 sejam possíveis.

Resta Gaitan, que nos sites que avaliam os jogadores não passa dos 15 milhões. Vendê-lo por 20 seria pois um excelente negócio, embora se trate de um jogador que não faz claramente a diferença, nem marca muitos golos.

Em resumo, e sem grandes danos para a qualidade da equipa, o Benfica pode realizar, numa estimativa muito benéfica, no máximo 45 milhões com estes jogadores (10 por metade do passe de Garay, 20 por Gaitan e 15 por Cardozo).

Ou, numa estimativa mais sensata, 35 milhões de euros (7,5 por Garay, 15 por Gaitan e 12,5 por Cardozo).

Agora, se vender ou Matic ou Salvio, os valores poderão subir consideravelmente.

Salvio poderá valer entre 25 e 30 milhões, é um excelente extremo, jovem, que marca muitos golos por ano. 

Matic ainda poderá ter um potencial maior. É um grande médio, fez uma época fantástica, e também marca golos.

Embora nos sites de avaliação de jogadores o seu valor não chegue aos 25 milhões, é possível que bem negociado vá até aos 35 ou 40 milhões, sobretudo se os compradores forem clubes milionários a contruir ainda equipas, como o PSG ou o Mónaco.

É pois perfeitamente admissível atingir um valor de 75 milhões, ou até mais, se todos os cinco jogadores forem vendidos.

Mas, e esse é o ponto, alguém acredita que o Benfica vai vender 5 jogadores destes na mesma época?

E como ficaria Jorge Jesus, que perderia de uma assentada 5 titulares da equipa?

Parece-me que, mais do que definir um objectivo mágico para o total de milhões que se obtém em vendas, Vieira se deve preocupar em vender bem quem já tem substituto à altura. 

São os casos de Garay (há Lisandro), Cardozo (há Lima, Rodrigo e talvez Funes Mori), e Gaitan (há Markovic, Ola John, Suleimani). 

Depois, é escolher um dos outros dois: ou Salvio, e perde-se força no ataque, ou Matic, e perde-se no meio-campo.

Vender os cinco ao mesmo tempo é que me parece demais. 

É certo que, nos escombros da venda de Javi e Witsel, Jesus construiu uma equipa que foi muito longe e chegou a ser brilhante na época passada.

Mas, fazê-lo de novo sem Matic, Salvio ou Cardozo, é muito difícil. Seria mesmo um milagre...

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publicado às 15:20


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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