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Há dias, José Mourinho declarou que a UEFA devia ser mais punitiva com quem não cumpria as regras do "fair play" financeiro.

Em vez de multas pecuniárias, ou proibição de mais contratações, a UEFA devia retirar pontos e títulos aos clubes incumpridores.

O alvo da sua ira era o Manchester City, um concorrente direto do Chelsea, que foi multado em Maio pela UEFA.

Para Mourinho, "se um clube perdesse seis pontos, e o lugar na Champions, teria mais atenção".

 

Talvez Mourinho tenha razão, e talvez no futuro a UEFA se veja obrigada a endurecer as sanções.

A verdade é que a perda de pontos e mesmo de títulos já está prevista, mas a UEFA ainda não chegou a esse extremo.

Era sabido que não ia ser assim, nos primeiros anos da aplicação das regras do "fair play financeiro".

Para já, pelo menos, não houve ainda perda de pontos ou impedimento para participar na Champions ou na Liga Europa.

O Sporting, tal como outros clubes que estão a ser investigados (Roma, Inter, Besiktas, Monaco, e mais alguns) não deverá pois ser penalizado este ano, embora o possa vir a ser no próximo.

 

O que dizem as regras do "fair play" financeiro da UEFA?*

Além de terem de ter a contabilidade em dia, os clubes têm de provar que não têm dívidas por pagar a outros clubes, a empregados, a jogadores ou outros fornecedores. Ter queixas de dívidas por pagar é meio caminho andado para o desastre.

Depois, têm de informar a UEFA de todas as dívidas que têm, para que a UEFA possa controlar o seu grau de endividamento, evitando que ele seja excessivo.

 

Por fim, a regra mais importante diz que os clubes (no caso português as SAD) não podem dar prejuízos durante mais de 3 anos consecutivos.

Esta é a chamada "Break Even Rule", embora seja aceitável um pequeno desvio, de 5 milhões de euros negativos. 

Porém, quem tiver prejuízos superiores a 5 milhões, mais de três anos seguidos, está em sarilhos com a UEFA, a não ser que os proprietários do clube cubram esse desvio com contribuições ou pagamentos. 

Nesse caso, os limites são diferentes, mais folgados, mas não é esse o caso do Sporting. 

Em 2010/2011 teve 43,9 milhões de euros de prejuízos, em 2011/2012 o prejuízo cresceu para os 45,9 milhões, regressando aos 43,8 milhões na época de 2012/2013.

 

Bruno de Carvalho tem razão, quando diz que estes nefastos resultados se devem à anterior gestão de Godinho Lopes, mas será que a UEFA se vai comover com esse argumento?

O Sporting tem um ponto a seu favor: na última época, 2013/2014, o clube fez um gigantesco esforço financeiro de contenção, e regressou aos lucros, tendo atingido os 368 mil euros positivos.

E, já esta época, o clube não perdeu a cabeça com contratações, e gastou pouco dinheiro.

A sangria parece estar pois contida, e a direção suicida alterada, e a UEFA tem certamente de ser sensível a isso.

 

No entanto, dificilmente o Sporting escapará a uma vigilância apertada da UEFA, e veremos se haverá ou não alguma sanção.

E é evidente que, nas próximas épocas, o Sporting terá de continuar a apertar o cinto, para evitar problemas.

O caminho é apertado, mas se o rumo se mantiver, e se os resultados desportivos melhorarem, é possível sair deste ciclo perigoso.

Se o Sporting conseguir vender bem algum jogador, ou se facturar muito este ano nas competições europeias, a situação melhora.

Até agora, nos seus actos de gestão, Bruno de Carvalho tem demonstrado que percebe o problema.

Esperemos que não se entusiasme em demasia, e não cometa erros que podem deitar tudo a perder... 

 

* Quem quiser ver ao pormenor as regras do "fair play" financeiro da UEFA vá a 

http://pt.uefa.com/community/news/newsid=2065454.html

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publicado às 10:09

Benfica e FC Porto são dois dos principais favoritos à vitória na Liga Europa.

Mourinho disse-o, e os oitavos de final confirmaram isso mesmo.

O FC Porto fez um grande jogo em Nápoles, empatando 2-2, e enviou para casa Benitez e Higuain.

O Benfica, que fez um grande jogo em Londres, onde venceu 3-1, ontem ainda apanhou um susto, mas acabou por empatar 2-2 e garantir que seguia em frente, o que faz sentido.

Durante 170 minutos o Benfica foi mais equipa que o Tottenham, que só acordou a 10 minutos do fim do jogo de ontem.

Podia ter empatado? Sim, podia, mas seria injusto, pois os ingleses jogaram muito pouco nos dois jogos.

 

E agora, quais são as possibilidades nos quartos de final?

Ao Benfica saiu uma das equipas teoricamente mais fáceis, o AZ Alkmaar.

Classificado no 35º lugar no ranking da UEFA, enquanto o Benfica é o 6º; e com um plantel avaliado em 43,9 milhões de euros, enquanto o do Benfica vale 190,7 milhões de euros; não há como negar que o Benfica é o favorito.

No campeonato holandês, o AZ está em sétimo, enquanto o Benfica lidera em Portugal, e com a segunda mão na Luz, parece-me que o Benfica tem todas as possibilidades de estar presente nas meias-finais. 

 

Quanto ao FC Porto, vai ter de defrontar o Sevilha, uma equipa perigosa e matreira.

Mas, o FC Porto também é favorito, sobretudo depois de duas eliminatórias épicas, em Frankfurt e Nápoles, a equipa está muito motivada e confiante nesta competição.

O Sevilha é o 29º no ranking da UEFA, enquanto o FC Porto é o 10º; e o plantel dos espanhóis vale cerca de 114 milhões de euros, enquanto o do FC Porto vale 183,2 milhões, o que ainda é uma diferença importante de qualidade.

No campeonato espanhol, o Sevilha está em 7º; enquanto os azuis estão em 3º no português.

Beto vai ter de defender muito para evitar que o FC Porto, sua antiga equipa, não siga para as meias-finais.

 

A minha previsão é que nas meias-finais da Liga Europa estejam presentes Juventus, Valência, FC Porto e Benfica, pois não acredito que o Lyon consiga derrotar os italianos, nem que o Basileia consiga eliminar o Valência.

Mas, isto é antes de começar...

 

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publicado às 12:42

Será que Benfica e FC Porto têm boas hipóteses de vencer a Liga Europa?

A resposta é sim, sobretudo o Benfica.

No site Euro Club Index, onde se calcula a probabilidade que cada clube tem de vencer uma determinada competição, baseado em cálculos estatísticos que levam em conta os resultados e a força da equipa, o Benfica está em 2º lugar.

Ou seja, o Benfica é o segundo candidato mais forte à Liga Europa, com uma probabilidade de vitória de 12,4%.

Está logo a seguir à Juventus, que tem uma probabilidade de vencer de 25,7%, e à frente do Valência, cuja probabilidade é de 10,4%.

 

Este estatuto não admira, pois o Benfica é neste momento o 6º no ranking da UEFA, com 112693 pontos acumulados.

Quando Jesus pegou na equipa há cinco anos, era o 26º ou 27º, e tem vindo sempre a subir.

É pois uma equipa muito forte na Europa, e na quinta-feira dificilmente se deixará surpreender pelo PAOK.

O clube grego é o 60º no ranking da UEFA, e o site Euro Club dá-lhe uma propabilidade de 0% de vencer a Liga Europa.

E, se compararmos o valor dos dois plantéis, a diferença é igualmente profunda: o do Benfica vale 190,7 milhões de euros, e o do PAOK vale apenas 58,75 milhões de euros, o que é menos que o plantel do Braga.

Não é pois provável que o PAOK possa surpreender a Luz, e o Benfica seguirá em frente.

 

E quanto ao FC Porto, como é que estamos?

Devido ao mau resultado da primeira mão, o FC Porto caiu no ranking do Euro Club.

Há uma semana, era o quarto candidato mais forte a vencer a Liga Europa, mas agora está em 7º lugar, com uma probabilidade de vitória na Liga Europa de apenas 5,5%.

É menos que o Benfica, mas ainda assim coloca o FC Porto como uma das equipas com mais responsabilidades na competição, que já venceu.

Será estranho que uma equipa como o Eintracht de Frankfurt consiga eliminar o FC Porto, pois a diferença entre as duas equipas é considerável.

No mesmo índice do Euro Club, o Eintracht é apenas a 15ª equipa com possibilidades de vencer a Liga Europa, com uma probabilidade muito pequena, de 1,5%.

 

E, se compararmos o ranking da UEFA, as diferenças também são muito cavadas: o FC Porto é o 11º no ranking da UEFA, com 97693 pontos nas últimas cinco épocas, enquanto o Eintracht não passa do 78º lugar, com apenas 26985 pontos acumulados.

O valor dos plantéis também apresenta diferença considerável.

Segundo o transfermarkt, o plantel do FC Porto vale 183,2 milhões de euros, enquanto o do Eintracht vale apenas 83,8 milhões de euros, menos que o plantel do Sporting.

Portanto, será uma desilusão o FC Porto ser eliminado pela equipa alemã, mas a verdade é que o FC Porto tem este ano surpreendido pela negativa, e por isso ser eliminado é uma real possibilidade. 

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publicado às 09:52

Como aqui escrevi logo depois da segunda jornada da Champions, este ano FC Porto e Benfica não têm andamento para a maior competição europeia.

Após as derrotas contra o Atlético de Madrid, no Dragão, e contra o PSG, em Paris, pareceu-me que ambas as equipas só podiam aspirar à Liga Europa.

Como se viu ontem, e na terça, assim foi. 

 

Apesar de tudo, o Benfica portou-se bem melhor do que o FC Porto, pois conseguiu fazer 10 pontos, o que é muito na Champions, e é pena que não dê para seguir em frente.

Foi sobretudo o jogo com o Olympiakos em casa, no meio de grande chuvada, que estragou tudo. Tivesse o Benfica vencido esse jogo e outro galo cantaria, mas a verdade é que não venceu.

De qualquer forma, dos 8 clubes que caiem para a liga Europa, o Benfica foi o segundo melhor, só ultrapassado pelo Nápoles, que mesmo fazendo 12 pontos não conseguiu seguir em frente.

Atrás do Benfica, e a caminho da Liga Europa, estão Shaktar, Basileia e Ajax, com 8 pontos na fase de grupos da Champions, Juventus, com 6; FC Porto, com 5 pontos, e Victoria Pilzen, com apenas 3 pontos.

 

Como se vê, para o FC Porto foi um ano muito mau na Champions. 

Apenas uma vitória, em Viena, dois empates, em São Petersburgo e em casa com o Áustria, e 3 derrotas, duas das quais em casa.

Julgo que é o pior ano de sempre dos azuis e brancos na Champions, e só a vitória na primeira jornada, na Áustria, lhes garantiu a Liga Europa, pois acabaram por ficar com os mesmos pontos que o último classificado, o Áustria.

Longe vão os tempos em que o presidente Pinto da Costa e o capitão da equipa, Lucho, diziam que tinham um forte desejo de jogar a final na Luz.

Na realidade, essas frases, tal como os desejos de Vieira e Jesus, eram puro delírio, e mais valia não terem sido proferidas pois agora soam a um atroz ridículo.

 

E quanto a dinheiro, como foram as coisas?

O Benfica já embolsou 12,3 milhões de euros, sendo que 8,6 milhões são o prémio de presença, 3 milhões são pelas 3 vitórias; meio milhão é pelo empate; e há ainda 200 mil euros pela passagem à Liga Europa.

Quanto ao FC Porto, o valor é um pouco menor, apenas 10,8 milhões de euros. São 8,6 milhões pela presença, 1 milhão pela única vitória, 1 milhão pelos 2 empates, e mais 200 mil euros pela passagem à Liga Europa.   

 

Para ambos os clubes, sobretudo para o FC Porto, é um pouco abaixo do que tinham estimado, pois ambos estavam a contar com mais 3,5 milhões do prémio por ir aos oitavos de final, que não veio.

Mas, ambos têm possibilidade de recuperar estes valores na Liga Europa, sobretudo se chegarem à final.

Chegar à final da Liga Europa é muito semelhante a ir aos quartos de final da Champions, e melhor do que ficar pelos oitavos.

O ano passado, o Benfica faturou 21,7 milhões em prémios totais da UEFA (incluindo fase de grupos da Champions e ida até à final da Liga Europa em Amesterdão), apenas um pouco menos do que no anterior, em que facturou 22,37 milhões e chegou aos quartos de final da Champions, sendo eliminado pelo Chelsea.

 

Portanto, se FC Porto e Benfica se empenharem, e conseguirem ir até à final da Liga Europa, o rombo financeiro será muito pequeno.

É isso possível?

Há equipas fortes, além das que caiem da Champions, onde estão Nápoles, Juventus, Ajax ou Shaktar. 

O Valência, a Lazio, o Tottenham, o Sevilha, são equipas difíceis, mas penso que tanto Benfica como FC Porto estão no lote dos favoritos.

Veremos como as coisas correm, e como será o sorteio. 

Mas, seja como for, é evidente que a Liga Europa é que é competição mais adequada para os clubes portugueses.

A Champions não é para o nosso dente.  

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publicado às 16:05

A SAD do Benfica aprovou as contas do ano que terminou em Junho, onde apresentou um prejuízo de 10,3 milhões de euros, um pouco menos do que na época anterior.

É importante lembrar que nestas contas estavam incluídas duas importantes vendas de jogadores, Witsel e Javi Garcia, mas mesmo assim a SAD deu prejuízo, pois o elevado investimento em novos jogadores (Salvio, Ola John, Lima, etc) comeu os ganhos.

Por outro lado, houve ligeiras perdas em receitas de bilheteira, e em prémios da UEFA. 

Além disso, os resultados financeiros continuam com perdas consideráveis, em juros e afins, nos 22,6 milhões de euros, e isso desequilibra as contas.

O Benfica está muito "alavancado", com uma dívida bancária de curto prazo elevada, nos 162 milhões de euros, e com dívidas a fornecedores de 49 milhões de euros e a outros credores de 47,3 milhões de euros.

É muita dívida.

Bem sei que o Benfica tem activos valiosos: o estádio e as infraestruturas que o rodeiam, o centro de estágio do Seixal, a marca, o valor dos passes dos jogadores.

Mas, a opção pelo endividamento tem custos altos, e infelizmente os resultados desportivos deixaram a desejar.

Se a equipa tivesse ganho a Liga Europa e o campeonato, esta dívida elevada justificava-se, mas assim deixa uma sensação estranha de inutilidade.

Talvez fosse bom o Benfica "desalavancar".

Pagar dívida com mais dívida, a taxas de 6 ou 7% é caro, e não resolve o problema do "fair play" da UEFA, que obriga os clubes a não terem 3 anos seguidos de prejuízos.

É certo que, com a Benfica TV a correr muito bem (mais de 230 mil assinantes), o Benfica poderá contar com 15 milhões de lucros adicionais vindos das receitas televisivas.

Só isso quase chega para dar lucro em Junho de 2014.

Mesmo que a carreira europeia não corra muito bem, seja na Champions, seja na Liga Europa, bastará ao Benfica vender em Janeiro um ou dois jogadores bem vendidos, para o ano ser mais equilibrado.

Contudo, acho que o clube podia "desalavancar", aumentando os seus capitais próprios e diminuindo a sua dívida de curto prazo.

Há duas formas de o fazer: transformando dívidas em capital ou aumentado os seus capitais em bolsa.

A primeira opção, já seguida pelo Sporting e aconselhada também pela UEFA, é perfeitamente possível.

Mas, com o bom momento que se vive nas bolsas, incluindo na portuguesa, o cenário de um aumento de capital pode ser muito atrativo.

O Benfica pode perfeitamente conseguir mais 30 ou 40 milhões de euros através da subscrição de novas acções, dispersando mais capital na bolsa.

O argumento da Benfica TV, bem como a melhoria visível da performance da equipa, permitem avançar para uma solução dessas.

Seria inteligente, pois traria um equilíbrio financeiro mais saudável à SAD, diminuindo a sua dívida e a sua dependência do financiamento bancário.

Eu sei que o futebol não tem tanto apelo bolsista como os CTT e outras empresas, mas com as poupanças que existem por aí, ir à bolsa pode ser a solução. 

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publicado às 09:46

Em Portugal, até agora só existia um modelo económico para gerir os três grandes: o modelo "import-export".

Inventado pelo FC Porto, e nos últimos anos seguido por Benfica e Sporting, o modelo assenta em alguns princípios.

Primeiro, é preciso comprar bem e o mais barato possível, em qualquer lugar do mundo onde existam jogadores talentosos.

Depois, é preciso pagar bem, para os jogadores se sentirem motivados e se empenharem.

Em terceiro lugar, é preciso jogar bem, ganhar títulos e ter presenças honrosas nos palcos europeus, que valorizam os jogadores.

Por fim, é preciso vender bem, para grandes clubes europeus e por muitos milhões de euros.

Se isto se fizer com competência e regularidade, há um ciclo virtuoso que nasce, e se mantém; e o modelo renova-se todos os anos.

Porém, este é um modelo que exige muito dinheiro, e por isso muito endividamento.

FC Porto e Benfica, por exemplo, gastam quase 50 milhões de euros por ano só em salários e prémios a jogadores.

Além disso, é um modelo de alto risco, pois só um dos clubes pode ser campeão nacional, e só dois têm entrada directa na Champions.

Com um risco tão elevado, os desastres são portanto muito fáceis de acontecer, como se viu no Sporting.

Godinho Lopes, logo que chegou à presidência, quis imitar FC Porto e Benfica.

A despesa salarial do Sporting trepou de 29,6 milhões em 2010-2011 para 42,5 milhões em 2011-2012, um aumento de 43% só numa temporada! 

E gastou fortunas em novas e caras contratações, algumas de qualidade mais do que duvidosa.

Ao fazê-lo, aumentou drasticamente o risco do negócio, e os resultados nunca surgiram.

Despediu o treinador Domingos, depois despediu o treinador Sá Pinto, e depois Vercauteren, numa instabilidade que matou o modelo de negócio, e afastou os sócios.

Os resultados da Sporting SAD*, agora publicados, são dramáticos, e mostram os perigos do modelo "import-export".

O Sporting gastou 41,6 milhões em despesas com o pessoal, (uma minúscula quebra face ao ano anterior), e aumentou o endividamento de curto prazo de 36 milhões para uns astronómicos 101,3 milhões de euros!

As mais-valias com as vendas de jogadores não foram nada do outro mundo (até Junho), apenas 11,8 milhões de euros em vendas reais, mais um pouco de cedências ao Sporting Portugal Fund.

Mas, isso nem era o mais grave.

Aos poucos o Sporting vinha a perder importantes parcelas dos direitos desportivos dos jogadores, entregando os passes para pagar dívidas, e em apenas uma época, o valor líquido do plantel desceu de 40,2 milhões para 28,2 milhões!

Para somar a este desastre, um outro se verificou no lado das receitas. 

Somando as quotizações com a bilheteira, o clube ficou-se pelos 6,5 milhões de euros, o pior resultado em 12 anos!

Nos patrocínios e no merchandising as coisas não foram dramáticas, e nos direitos televisivos o Sporting facturou mais do que o Benfica, chegando aos 11,5 milhões, enquanto na Luz não se ultrapassou os 8 milhões.

Porém, os prémios da UEFA foram uma miséria, apenas 1,9 milhões de euros, o valor mais baixo desde 2004!

Os resultados finais não podiam por isso ser bons.

Pelo segundo ano consecutivo, o Sporting apresentou prejuízos acima de 40 milhões de euros, ficando-se este ano pelos 43,8, quando na época passada chegara aos 45,9 milhões de euros. 

Mais grave do que isso, os capitais próprios do clube agravaram-se, e já estão em 119,4 milhões de euros negativos!

É evidentemente, um clube em falência técnica, e só uma duradoura e consistente revolução o pode levantar do chão. 

Bruno de Carvalho, o novo presidente, parece ter compreendido isso, e parece caminhar na direcção do outro modelo possível de gestão de um grande, um modelo que na verdade nunca foi tentado em Portugal.

Chamemos a esse modelo "formation to export".

No fundo, trata-se de basear a equipa nos talentos saídos da formação, pagando-lhes salários mais baixos do que se pagava aos craques importados, e depois ter um bom treinador que possa construir uma equipa competitiva.

O fim do modelo é idêntico ao outro: vender bem os jovens talentos.

Comparando este modelo com o "import-export", vemos que o "formation to export" precisa de menos compras, menos salários e menos dívidas.

É óbvio que também tem menos possibilidades de vencer campeonatos, mas com o tempo, a dois ou três anos, pode consegui-lo.

Foi isso que se passou com o Borussia Dortmund.

Primeiro, bateu no fundo; depois, apostou nos miúdos, e ao fim de três anos foi campeão da Alemanha, em duas épocas consecutivas e o ano passado chegou à final da Champions.

No caso do Sporting, este era o único caminho.

Não havendo no horizonte um milionário russo ou árabe para comprar o clube, como nos casos de City, Mónaco, Chelsea ou PSG, só se podia ir para o "formation to export".

É claro que, na fase de transição, há muitos espinhos.

Há muito jogador para dispensar; há muitos funcionários para despedir, há que romper com muitos interesses instalados.

Há também uma complexa reestruturação financeira para executar, e a banca aperta com as suas obrigações, mesmo que esteja disponível para ajudar.

Há igualmente que transformar dívidas em capital, e meter no barco novos aliados, como os angolanos.

E tudo isso tem riscos, pois no estado em que está, o Sporting dificilmente cumpre os requisitos do "fair play" da UEFA, e por isso esta transformação tem de ser rápida, se o clube quiser voltar às competições já no próximo ano.

Mas, os primeiros frutos já são visíveis.

Não só a equipa começou bem o campeonato, empolgando os adeptos, o que é essencial para as receitas de bilheteira subirem; como vendeu bem dois jovens talentosos, Ilori e Bruma, conseguindo importantes mais-valias.

Como diz o velho provérbio chinês, "uma jornada de mil passos começa com o primeiro". 

Esperemos que Bruno Carvalho não mude de ideias a meio, pois para o "formation to export" resultar é preciso ser muito coerente e persistente. 

 

* Relatório de Contas da Sporting SAD, 2012-2013

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publicado às 11:24

Nas últimas semanas, muitas foram as notícias sobre a eminente transferência de Gareth Bale do Tottenham para o Real Madrid.

Embora não existisse unanimidade, os valores apontavam para a astronómica soma de 100 a 120 milhões de euros. 

Em certos casos, dizia-se que esse valor incluíria o passe de outros jogadores do Real Madrid (Di Maria, Coentrão, etc), e que poderia diminuir para cerca de 80 milhões, se eles fossem incluídos no negócio.

Seja como for, a imprensa do futebol parecia dar como adquirido que iria ser batido o recorde de transferências, no valor de 94 milhões de euros e ainda na posse de de Cristiano Ronaldo, quando em 2009 se mudou do Manchester United para o Real Madrid. 

Como é evidente, aquilo que sei é o que vem escrito na imprensa, e portanto não faço ideia se Bale será ou não transferido este ano, e a ser porque valor se fará a operação.

Porém, parece-me interessante investigar a questão do valor da transferência. Será que Bale vale 120 milhões? Ou mesmo 100 milhões de euros?

Qual o valor de mercado do jogador? E como se chega a esse valor?

A empresa brasileira Pluri Consultoria, que publica todos os anos uma lista dos 60 mais valiosos jogadores de futebol do mundo, considerou que no final da época de 2012 o jogador Gareth Bale era o 17º mais valioso do mundo, com um valor de mercado de 39 milhões de euros.

E, em Abril último, já perto do final da época de 2013, o site alemão TransferMarket colocava Bale apenas um lugar acima, no 16º lugar, com um valor de 42 milhões de euros, semelhante ao de Mário Gotze, Sergio Busquets, Juan Mata ou Frank Ribery. 

Portanto, e apesar da excelente época 2012/2013 que fez, Bale não subira muito o seu valor para os obervadores de mercado, não passando da quinta posição entre os jogadores que actuam na Premier League inglesa, atrás de Rooney, Kun Aguero, Van Persie e David Silva. 

Como explicar então que um jogador que em Abril estava avaliado em 42 milhões possa em Agosto valer 100 ou mesmo 120 milhões?

Para analisar o valor de mercado de um jogador é preciso avaliar as suas características: a sua performance, a sua integração numa equipa, e o potencial gerador de receitas para o clube.

Comecemos pela "performance". Bale tem 24 anos, feitos a 16 de Julho, e está portanto na idade perfeita para dar um salto na carreira, quase a atingir a maturidade como jogador mas ainda com uma força física impressionante. 

É normalmente nesta idade que acontece um pulo salarial e Bale já ganha perto de 5 milhões de euros por ano. Se ficar no Tottenham esta época, terá provavelmente direito a um aumento de salário substancial.

Dotado de um estupendo pé esquerdo, Bale evoluiu de defesa-esquerdo para extremo-esquerdo, e depois para extremo à solta, a quem o treinador dá inteira liberdade para vaguear por onde quer.

É muito rápido, forte e possante, e começou por ser notado pela forma eficaz como batia livres, marcando muitos golos.

No entanto, nas últimas duas épocas, sobretudo na última, marca cada vez mais golos em andamento, embora quase só com o pé esquerdo. 

Em Abril de 2006, tornou-se no segundo mais jovem jogador de sempre a estrear-se no Southampton, com apenas 16 anos e 275 dias. Marcou nessa época dois golos, ambos de livre directo.

Ao todo, realizou 45 jogos com a camisola do Southampton, tendo facturado 5 golos, e em Maio de 2007 foi vendido ao Tottenham, por cerca de 10 milhões de euros. 

Já nos Spurs, começaram os problemas sérios. Uma rotura de ligamentos no tornozelo direito impediu-o de jogar mais esse ano, e mesmo a época seguinte, 2008-2009, ficou seriamente comprometida, tendo Bale jogado muito pouco.

Os problemas continuaram: em Junho de 2009 foi operado ao joelho e perdeu a pré-época. Mas a parte final dessa temporada já correu bastante bem, e renovou com o Tottenham em Maio de 2010.

A partir daqui é quase sempre a subir.

O número de golos marcados aumenta: serão 11 no final da época, seguindo-se 12 na época seguinte, 2011-12.

Embora jogasse a extremo-esquerdo cada vez mais vezes, só no início da última época é que muda defitivamente de número e de posição. Troca o 3 pelo 11 e declara que não mais será um "defesa-esquerdo". 

A mudança definitiva faz explodir a sua importância na equipa. Já com André Villas-Boas como treinador, marca um total de 26 golos e anda literalmente com os colegas às costas, levando-os ao quinto lugar na Premier League.

No entanto, e apesar de vários títulos individuais, Bale nunca venceu qualquer título por equipas, nem sequer uma taça. E na Europa, o Tottenham não passou dos quartos-de-final da Liga Europa...

Para complicar a situação, a velha lesão no tornozelo direito voltou a dar problemas, afastando Bale durante alguns jogos.

O seu estilo espectacular de corrida é a sua imagem de marca, bem como os poderosos pontapés, mas o tornozelo direito é o seu calcanhar de Aquiles, por assim dizer.

Para além disso, Bale também não tem grande sorte com a Seleção Nacional pela qual joga. O seu País de Gales não será nunca um concorrente à altura de um Europeu ou de um Mundial de Futebol, o que significa que ele não pode aproveitar esses palcos para se valorizar. 

Harry Redknapp, que o lançou como extremo-esquerdo, é um dos seus principais apreciadores, e considera-o "um talento impressionante, que tem melhorado sempre, um jogador de classe mundial, logo atrás dos Messis e dos Ronaldos". 

Sim, é evidentemente um excelente jogador, mas ao ponto de valer 120 milhões de euros?

Terá Bale um potencial grande de atração de novas receitas? É que encher as bancadas de White Hart Lane não é exactamente o mesmo de enchê-las no Santiago Bernabéu. 

Também não parece provável que as audiências televisivas do Real dêem um pulo muito grande só por causa de Bale, ou que o número de camisolas vendidas com o seu número seja muito espantoso na Ásia ou na América.

Bale ainda não é uma estrela mundial, e não tem uma imagem fantástica e "cool", que possa ser rentabilizada, como se passou com Beckham.

Por outro lado, e esse pode ser um problema grande, a presença de Bale, se o Real pagar por ele os tais 100 ou 120 milhões, poderá desestabilizar a hierarquia salarial da equipa.

Será que ele vai ganhar mais do que Ronaldo ou do que Ozil, o segundo jogador mais valioso do Real? Ficará à frente de Casillas? 

E como lidará Cristiano com a ideia de que já não é o recorde de transferências do mundo? Não será esse um factor de instabilidade adicional para o seu ego susceptível, ainda por cima sabendo todos nós que Cristiano marca por ano o dobro dos golos de Bale?

Bale é um excelente jogador e também profissional, e a sua vida pessoal, bem como o seu comportamento fora do campo não acusam qualquer falha preocupante. Porém, 100 milhões é muito dinheiro, e atendendo a que o potencial de receitas que Bale pode gerar é inferior às que gerou até agora Ronaldo, não se compreende bem como pode o Real admitir pagar tanto dinheiro por ele.

Bem sei que cada transferência é uma história, uma narrativa original, e há sempre um elemento muito especulativo no mercado de transferências, mas mais do que 80 milhões por Bale parece-me um mau negócio.

Até porque há o tal tornozelo, que já deu problemas graves...

Por fim, temos de considerar a dimensão do "fair play financeiro" da UEFA.

Arsene Wenger, treinador do Arsenal, já veio a público dizer que se a transferência de Bale se realizar por 120 milhões de euros então o "fair play financeiro" não existe.

Ele sabe do que fala.

Uma das críticas que os clubes ingleses fazem à UEFA é a de que ela permite que em Espanha existam 2 clubes (Real e Barça) que ganham muito mais que os outros clubes europeus em direitos televisivos, e que gastam fortunas em jogadores, sem depois levarem as perdas efectivas às suas contas, pois nem Real nem Barça são sociedades comerciais, e podem realizar muita "contabilidade criativa"...

É um ponto relevante, mas a UEFA não deu qualquer resposta.

 

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publicado às 15:15


Sobre o autor

Domingos Amaral é professor de Economia dos Desportos (Sports Economics) na Universidade Católica Portuguesa. É também jornalista e escritor e tem o blog O Diário de Domingos Amaral.


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  36. S
  37. O
  38. N
  39. D